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Atraso na fala das crianças deve ser motivo de preocupação para os pais?

Estilo de vida das famílias e uso excessivo de 'telinhas' podem estar contribuindo para que as crianças demorem mais para se comunicar verbalmente.

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Publicado em: 01 de fevereiro de 2019

A comunicação não é restrita à fala, por isso mesmo os bebês têm capacidade de se comunicar, seja por risadas, olhares, gestos ou sons da voz. A partir do primeiro ano, já é comum que as crianças pronunciem as primeiras palavras, que geralmente são tentativas de "mamãe" ou "papai".

A partir dos dois anos, normalmente a criança forma as primeiras frases. Aos três, orações mais completas e facilmente compreendidas por pessoas que não convivam com a criança, de acordo com a fonoaudióloga Juliana Trentini, autora do livro "Do gugu-dadá ao mamãe, me dá".

Aos cinco, a fala já deve fluir sem dificuldade, porque nesta idade o padrão de linguagem é semelhante ao de um adulto. O marco científico para identificar um retardo na aquisição da linguagem é aos dois anos e seis meses, segundo especialistas.

Trentini lembra que nem todas as crianças têm o mesmo ritmo de desenvolvimento, mas, se houver qualquer desconfiança de dificuldade na aquisição de linguagem, é recomendável buscar ajuda de especialistas. Uma intervenção considerada precoce, feita antes dos três anos, com terapia fonoaudiológica e acompanhamento médico, pode oferecer resultados mais rápidos.

Em que a idade a criança começa a falar?

"Existe a crença de que tudo bem se a criança não falar antes dos três anos, de que vale a pena esperar, mas a linguagem é um indicador importante do desenvolvimento neurológico. Se a criança tem dificuldade, talvez não consiga atingir seu potencial e pode ser um tempo precioso de intervenção que não está sendo aproveitado", diz a fonoaudióloga Juliana Trentini.

Até os quatro anos, a criança tem uma "janela de linguagem intensa." "Mas ela é muito intensa entre 0 e 18 meses, é quando os neurônios crescem e formam conexões, por isso, a reação é melhor, os neurônios estão mais desocupados. A partir dos quatro anos, a resposta será mais lenta", explica o neuropediatra Antônio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.

O médico lembra que a comunicação não-verbal das crianças também deve ser notada. "Mesmo sem falar, é preciso avaliar se a criança se comunica. Ele aponta o dedo, faz mímica, há expressão de emoção? O conceito de linguagem é amplo, a gente se comunica de várias formas com gestos e emoção."

Casos de atraso de desenvolvimento da fala exigem uma atuação conjunta entre médicos e fonoaudiólogos. Antes de iniciar uma intervenção, é preciso descartar problemas genéticos, psiquiátricos e auditivos por meio de exames clínicos.

Transtorno de Desenvolvimento de Linguagem (TDL)

Descartada a presença de síndromes ou patologias, a maioria dos casos de crianças que não têm vocabulário ou forma de falar esperada para a idade tende a ser transitória. Estudos científicos nos EUA dizem que nestas situações o desenvolvimento da linguagem ocorre até por volta de quatro anos e meio. No Brasil, essa estimativa pode variar porque, em razão das condições socioeconômicas das famílias, uma criança com a saúde perfeita pode ter um desenvolvimento mais demorado por falta de acesso ao tratamento adequado.

Há, entretanto, casos de atraso que possuem diagnóstico de distúrbio de linguagem. Estima-se que de 7% a 10% da população infantil, de um a cinco anos, tem boa compreensão, funções cognitivas preservadas e boa audição, mas não desenvolve a linguagem como o esperado por conta de um distúrbio chamado Transtorno de Desenvolvimento de Linguagem (TDL), de acordo com a fonoaudióloga Amalia Rodrigues.

Os sintomas de um atraso na fala e do TDL, que é mais complexo, são os mesmos. Um especialista só poderá chegar ao diagnóstico após o início do tratamento. No primeiro caso, em até seis meses de intervenção, às vezes também com acompanhamento psicológico, a linguagem da criança começa a despontar.

"A resposta já nos direciona se a criança tem algo como um atraso, que é temporário, ou se configura um distúrbio e vai precisar de intervenção por muitos anos. O TDL é um problema crônico para toda a vida, mas com a intervenção correta é possível fazer a inclusão na sociedade", explica Amalia Rodrigues, que professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Amalia diz que, em ambos os casos, uma das orientações é matricular a criança na escola, caso ainda não a frequente, por conta do acesso a atividades pedagógicas e pelo contato com outras crianças. "Orientamos a família e a escola que é preciso oferecer estímulos. A brincadeira é a base cognitiva que vai auxiliar a criança a fazer o desenvolvimento linguístico. Quando ela passa a aprender fora do contexto terapêutico, é um indício de que pode o problema é um atraso, não um distúrbio."

Sintomas de autismo

O atraso na fala pode ser um dos sintomas de comprometimento neurológico ou de transtornos como o autismo. Mesmo nesses casos, segundo Juliana Trentini, com um bom tratamento é possível ter chances de sucesso. "São raras as crianças não verbais, só os casos muito severos."

Amalia Rodrigues afirma que hoje há autistas com desempenho excelente na comunicação, e que a tecnologia proporcionou um campo de inclusão grande. "Além do mais, existe uma série de outras patologias que podem ser relacionadas ao atraso de fala. É mais fácil ser uma alteração de linguagem do que ser autismo. Esse susto [da possibilidade de um diagnóstico como autismo] mobiliza alguns pais, mas para outros dificulta a busca pela ajuda por medo."

O neuropediatra explica que antigamente o diagnóstico de autismo era focado na linguagem falada. Agora já há a percepção da linguagem não falada, como o olho no olho e a observação da atenção da criança. "Hoje os professores percebem mais a comunicação não-verbal, mas os pediatras ainda não têm esse preparo acurado."

Um diagnóstico feito somente a partir da fala pode ser muito tardio, segundo Antônio Carlos de Farias.

Eletrônicos prejudicam crianças?

Um dos vilões da aquisição de linguagem é a variedade de equipamentos eletrônicos que existe hoje. O contato cada vez mais cedo com televisão, tablets e smartphones pode ser prejudicial para a criança, segundo especialistas.

"O ideal é a criança não ter contato com nada disso antes de dois anos, e depois ter um acesso limitado. Existe, sim, influência porque a tela afeta o desenvolvimento sensorial da criança, e ele é importante para o desenvolvimento da linguagem", afirma Juliana Trentini.

Ela explica que esse tipo de tela tem capacidade de "enganar o cérebro", distraindo a criança e dificultando que aprenda ou se desenvolva durante o contato com os equipamentos.

Amalia diz que os pais têm tido menos tempo de qualidade com os filhos. "Digo aos pais que as horas que passam com filhos precisam ser de interação, conversa, brincadeira, leitura de histórias e qualquer atividade que tenha a conversa por intermédio são aproveitadas."

Fonte: BBC Brasil (Matéria completa aqui)
Edição: C.S.

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