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Amamentação ajuda a restaurar microbiota do bebê após efeitos da cesariana

Estudo mostrou que o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses promove uma restauração parcial dos efeitos da cesariana sobre a microbiota intestinal do lactente.

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Publicado em: 18 de novembro de 2019

Imagem: Freepik

Microbiota é o conjunto de bactérias, vírus, fungos e outros micro-organismos que vivem em um determinado órgão ou ecossistema, como no intestino humano. A microbiota intestinal é considerada componente da fisiologia humana, desempenhando papéis importantes na saúde e na doença. A colonização e o estabelecimento da microbiota intestinal ocorrem paralelamente ao desenvolvimento do sistema imunológico, neurológico e à programação metabólica no início da vida.

Distúrbios na colonização e no estabelecimento da microbiota neonatal têm sido associados a ocorrência de doenças durante a infância, como, por exemplo, alguns quadros infecciosos. Dentre os fatores que afetam microbiota natural do recém-nascido estão: a idade gestacional, o uso de antibióticos, o tempo de hospitalização, o tipo de parto e o tipo de aleitamento — esses dois últimos abordaremos nesse texto.

Parto normal versus cesariana

Um estudo recente publicado pela Nature por Shao e colaboradores (2019), avaliou amostras de fezes de 596 lactentes a termo, coletadas em 4 momentos ao longo do primeiro ano de vida. O estudo mostrou que os que nasceram de parto normal tinham a presença de bactérias benéficas na microbiota intestinal, como Bifidobacterium, Escherichia, Bacteroides e Parabacteroides, adquiridas a partir da microbiota vaginal e intestinal da mãe; já os de cesariana tinham a presença de bactérias como Enterococcus, Staphylococcus, Streptococcus, Klebsiella, Enterobacter e Clostridium, adquiridas a partir da pele e do ambiente hospitalar.

Além do mais, os bebês que nasceram de cesariana tinham pouca presença de algumas bactérias benéficas, comoBifidobacterium e Bacteroides nas primeiras semanas de vida, e no caso de Bacteroides, essa baixa colonização permanece ao longo do primeiro ano de vida. Um outro estudo de 2015 publicado pela Cell Host & Microbe por Bäckhed e colaboradores, mostrou que bebês nascidos de cesárea têm atraso no amadurecimento da microbiota intestinal. Aos 12 meses de vida, bebês nascidos por parto normal desenvolvem uma microbiota semelhante à da mãe, enquanto os nascidos por cesárea ainda apresentam diferenças marcantes, especialmente na colonização por Bacteroides.

Enfim, quando li esses estudos fiquei com vários pontos de interrogação, pois meu primeiro filho nasceu prematuro, de cesária e ficou na UTI. Muitas mulheres não contam nem com a escolha de cesária ou parto normal. Às vezes é um parto de emergência e em outros casos não ocorre a dilatação. Agora, se você não consegue ter um parto normal a microbiota do seu filho pode estar comprometida? Qual a solução para esse tema?

Aleitamento materno

Foi assim que Korpela e colaboradores, no seu artigo de 2018 publicado na revista Scientific Reports, tentaram encontrar soluções de como amenizar os efeitos do tipo de parto sobre a microbiota intestinal do bebê. O estudo mostrou que o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses promove uma restauração parcial dos efeitos da cesariana sobre a microbiota intestinal do lactente.

Já sabemos que a fase de lactação ou amamentação é considerada um período de grande importância para a nutrição da criança, pois o aleitamento materno fornece uma diversidade de benefícios à saúde do bebê, como nutrientes em quantidades adequadas e suficientes nos primeiros seis meses de vida e fatores imunológicos que protegem a criança de doenças infecciosas.

Por esse motivo, a amamentação — exclusiva até os 6 meses de idade — em comparação ao uso de fórmulas, diminui a incidência e/ou a gravidade das doenças infecciosas — diarreia, infecção do trato respiratório e do trato urinário, otite média, bacteremia e enterocolite necrosante. Os benefícios em longo prazo do aleitamento materno também já são reconhecidos, como redução no risco de desenvolvimento de obesidade, diabetes mellitus e síndrome metabólica.

O leite materno conta com compostos como:

Células imunes — imunoglobulinas Agentes de proteção. Glóbulos brancos, que reforçam o sistema imune e podem auxiliar no desenvolvimento e regeneração dos órgãos.

Proteínas — Mais de 1000 proteínas que auxiliam no crescimento e desenvolvimento, ativando o sistema imune e desenvolvimento e proteção dos neurônios e mais de 20 aminoácidos.

Enzimas — Mais de 40 enzimas que auxiliam nas reações químicas do corpo.
Fator de c rescimento Desenvolvimento e crescimento saudável do bebê.

Ácidos graxos — Desenvolvimento do sistema nervoso.

Vitaminas e minerais — Crescimento saudável e funcionamento dos órgãos. Formação dos dentes e ossos.

Hormônios — Regulação adequada do organismo.

Anticorpos — Responsável pela proteção.

Micro-RNAs — Responsável pela expressão genética e programação metabólica.

Oligossacarídeos — Mais de 200 açúcares complexos que atuam como prebióticos e que também impedem infecções e inflamações.

O leite materno orquestra o desenvolvimento gastrointestinal, imunológico e da microbiota, por conter nutrientes bioativos e outras substâncias que modulam esses processos, onde os oligossacarídeos constituem um componente-chave.

O artigo sobre "Amamentação e Uso de Leite Humano", que são as últimas diretrizes clínicas da Academia Americana de Pediatria, publicou recentemente na revista Pediatrics, que o aleitamento materno e a alimentação infantil devem ser consideradas um problema de saúde pública e não apenas um estilo de vida.

Em 42 países em desenvolvimento, que são afetados por 90% das mortes de crianças no mundo, a amamentação durante os primeiros seis meses poderia evitar um milhão de mortes de crianças por ano (equivalente a 13% de mortalidade criança no planeta). Por isso, os benefícios do aleitamento materno vão muito além. A mais recente evidência científica confirma que as crianças amamentadas por mais de quatro meses são beneficiadas com:

  • 72% menor risco de hospitalização por infecções respiratórias;

  • 64% menos de infecções gastrointestinais;
  • Redução de 36% de morte súbita;

  • Diminuição de 27 a 47% de asma;

  • Redução de dermatite atópica e eczema;

  • Diminuição do risco de 52% de desenvolvimento de doença celíaca;

  • 31% menos de doença inflamatória do intestino;

  • Redução da incidência de diabetes de tipo I em 30%, entre 15 e 30%, em adolescentes e adultos obesos;

  • 20% menos de leucemia linfocítica;

  • Estimulação do sistema neurológico significativamente e imune que pode ocorrer em bebês prematuros.

Em relação à saúde materna foi encontrada:

  • Redução do sangramento e depressão pós-parto;

  • Menor incidência de diabetes tipo II;

  • Diminuição de doenças cardiovasculares após a menopausa;

  • Redução do risco de câncer de mama e ovário;

  • Perder os quilinhos a mais adquiridos durante a gravidez (cerca de 500 calorias por dia).

O que são os oligossacarídeos?

Além de nutrientes para o bebê, o leite materno contém uma mistura diversificada de oligossacarídeos complexos, que são açúcares compostos de 2 ou mais monossacarídeos — os oligossacarídeos do leite materno (HMOs; do inglês Human Milk Oligosaccharides). Presentes no leite materno em uma concentração média de 10 g/l, os HMOs são o terceiro maior componente sólido do leite materno — só perde para lactose e lipídios. Os HMOs não são digeridos pelo bebê, mas são substratos de crescimento para bactérias benéficas no intestino, como Bifidobacterium e Bacteroides.

O leite materno de mães com um alelo funcional do gene FUT2 — secretoras — contém uma grande quantidade de HMOs α1-2 fucosilados, mais abundantemente 2'fucosil-lactose (2′-FL) e em menor quantidade lactodifucotetraose (LDFT), lactato-N-difucohexaose I (LNDFH I) e lacto-N-fucopentaose I (LNFP I).

O leite materno de mães não secretoras não possui ou possui apenas vestígios desses oligossacarídeos α1-2 fucosilados, contendo assim uma quantidade total menor de HMOs, mais ainda em concentrações na ordem de gramas/litro. A maioria das mulheres, no entanto, produz esses α1-2 fucosilados. Um estudo realizado na Universidade Federal de São Paulo por Tonon e colaboradores, publicado em 2019 na revista Nutrients, mostrou que 87% das 78 nutrizes participantes produziam HMOs α1-2 fucosilados no leite, com uma concentração total de HMOs acima de 6 g/L. As as mães que não produzem esses HMOs α1-2 fucosilados são minoria na população brasileira (~13%), mas ainda assim, apresentam concentrações elevadas HMOs totais, acima de 2 g/L.

Os HMOs podem se ligar a bactérias, vírus e protozoários no intestino do bebê, impedindo que se proliferem e provoquem infecções na criança. Os HMOs também podem se ligar diretamente às células epiteliais do intestino, alterando a expressão dos receptores celulares, o que impede a ligação de patógenos às células epiteliais do intestino, reduzindo ainda mais o risco de infecções no bebê.

O fenótipo secretor materno foi associado à menor prevalência de dermatite atópica em uma coorte de bebês nascidos de cesariana e os HMOs individuais foram relacionados a redução do risco de alergia ao leite de vaca. A maneira provável pela qual o status de secretor materno influencia o desenvolvimento do sistema imunológico da criança é através da microbiota intestinal. Os HMOs α1-2 fucosilados são degradados por enzimas da família da glicosil hidrolase 95, presentes em cepas de bifidobactérias comumente observadas em bebês. A abundância dessas bactérias está associada ao modo de nascimento, sendo comumente reduzida em bebês nascidos de cesariana.

Funções biológicas dos HMOs na modulação da microbiota intestinal do bebê

Efeito prebiótico Servem de substratos para bactérias benéficas para a microbiota, especificamente para Bifidobacterium e Bacteroides. Promovidas pelos HMOs, essas bactérias regulam o ecossistema intestinal, impedindo a proliferação de patógenos.

Efeito antimicrobiano antiadesivo Micro-organismos patogênicos precisam aderir ao epitélio intestinal para causar infecção. Os HMOs interceptam a adesão de patógenos ao intestino, ligando-se a eles, pois são muito parecidos com os receptores celulares utilizados pelos micro-organismos para se aderir à célula do intestino. Dessa forma, os HMOs atuam como uma espécie de "isca" de patógenos, pois uma vez ligados aos HMOs, os patógenos são eliminados nas fezes, sem causar doença na criança. Os HMOs atuam como "iscas" para diversos agentes infecciosos, incluindo bactérias, vírus e protozoários como E.coli, Campylobacter, Pseudomonas, Salmonella, Streptococcus, Influenza, Entamoeba histolytica, entre outros.

Fortalecimento da função da barreira intestinal Ao se ligarem às células do intestino, os HMOs alteram os processos de proliferação, diferenciação e apoptose celular, promovendo a função de barreira do intestino.

Mas e se não conseguir ter parto normal e ter o aleitamento exclusivo pelos 6 meses?

O aleitamento materno é super positivo para mãe e bebê. Porém, é necessário enfatizar em todas campanhas: você pode ser mãe e não conseguir amamentar! Não se culpe por isto. Deve ser reforçado a todos as dificuldades da amamentação, que não são pontuadas:

  • O bico dos seios podem não estar preparados (como os "invertidos");

  • Pode haver rachaduras e sangramentos durante a amamentação;

  • Seu bebê pode demorar a aprender o processo de sucção;

  • Introdução de complementos, se o seu bebê tiver muita fome, pode fazer com que abandone o aleitamento exclusivo;

  • Nervosismo e situações de estresse podem fazer com que reduza a produção leite materno.


Há vários fatores que podem privar a mulher de realizar a amamentação. Temos que levantar a questão das dificuldades encontradas por algumas mães para que isto não torne um sofrimento na vida destas mulheres. Se conseguir amamentar, ótimo para tudo.

Se não conseguir e se tiver o desejo de amamentar, não êxito em buscar ajuda de um pediatra amigo da amamentação, de uma consultora em aleitamento materno ou o atendimento em um Banco de Leite Humano, que é gratuito (SUS) e possui profissionais capacitados no manejo do aleitamento materno, pois na maioria das vezes, essas dificuldades são resolvidas com medidas muito simples.

Muitas vezes, apenas uma orientação, a correção do posicionamento do bebê e o alívio da insegurança da mãe são suficientes. Procure um médico que dê uma orientação alimentar para seu bebê e suporte emocional. Você não será menos ou mais mãe por não conseguir amamentar. Peça auxílio médico.

Fonte: UOL
Texto: Paola Machado 
Edição: C.S. 

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