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Psicoterapia pontual ajuda a lidar com coronavírus: veja como pedir ajuda

As queixas foram desde crises de ansiedade, palpitação, taquicardia, hiperventilação e até compulsão alimentar.

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Publicado em: 21 de maio de 2020

Imagem: Freepik

Máscara? Ok. Álcool, tá ok. Isolamento, ok. Saúde mental? É, essa não está ok. Afinal, estamos em meio uma pandemia ainda sem cura, que além de demandar uma nova rotina cheia de cuidados para prevenir a doença, rompeu com o mundo do jeito que conhecíamos. Um surto provocado por seres de em média 120 nanômetros de tamanho (1 nanômetro é 1 bilhão de vezes menor que 1 metro), que em menos de 5 meses, afetou a vida das populações em mais de 180 países.

Boa parte dos hábitos que representavam formas de relaxar e deixar os dias mais leves teve que ser suspensa ou adaptada. Sem saber quanto tempo a ameaça da contaminação vai durar e quais práticas vamos poder manter depois da pandemia, o jeito tem sido cuidar dos pensamentos.

Para ter ideia, na empresa Qualiforma, especializada em medicina do trabalho, o crescimento na procura pelo teleatendimento psicológico foi de 150% desde o dia 16 de março. Outro destaque é que cerca de 90% dos pacientes recorreram ao serviço após o início da quarentena, ou seja, a maioria não optava por esse tipo ajuda terapêutica antes do coronavírus.

"O shiatsu e a ginástica laboral eram os recursos mais utilizados para aliviar o estresse, a ansiedade e o excesso de cobrança. Com a mudança do cenário, surgiram novos problemas, com riscos e medos que acentuaram fragilidades emocionais", afirma Gabriel Diniz, gestor do teleatendimento psicológico da empresa.

As queixas foram desde crises de ansiedade, palpitação, taquicardia, hiperventilação e até compulsão alimentar. O isolamento e falta de perspectiva da vida social e financeira provocou alta de 45% nos quadros depressivos, marcados pela insegurança e desesperança.

Porta de entrada para a análise

O fotógrafo e produtor de vídeos Thom Junior compartilhou desse desalento sentido por muitas pessoas após as primeiras consequências do surto do coronavírus. O pensamento inicial foi que o mercado onde atuava (de eventos e casamentos) tinha fechado completamente e que não haveria mais oportunidades de trabalho. "Isso me abalou bastante e estava muito difícil pensar numa solução. Ficava na cama o dia inteiro e não via a famosa luz no fim do túnel", afirma.
Em meio a pensamentos negativos e incrédulos, de que sua área estava arruinada e de que não tinha mais como se reinventar e voltar a ser útil, Thom seguiu a indicação de sua esposa e começou a fazer aconselhamento psicológico. "Imaginava aquele formato clichê, de deitar no divã e falar, falar... Mas foi uma grande lição, é um direcionamento muito importante. Acho até que poderia ter iniciado antes."

Apesar da ajuda ter vindo num contexto emergencial, foi uma experiência tão proveitosa que o fotógrafo pretende continuar com as sessões de terapia. Foi uma forma de apoio que ele encontrou para conseguir vislumbrar mais facilmente novas alternativas para a sua ocupação, de reconhecer o seu próprio valor e compreender a sua posição perante a sociedade.

Assim como Thom, a médica Bruna Luana Ferreira sempre considerou que tinha uma vida estável, repleta de afazeres e atividades, e que era capaz de lidar com os problemas por conta própria ou com o apoio dos amigos e familiares. Residente do hospital Sírio Libanês, ela foi infectada com o coronavírus e teve que permanecer isolada durante 15 dias. Por ter acompanhado de perto o tratamento de vários pacientes contra a doença, sabia bem dos riscos que corria. Foi quando começaram a surgir dúvidas, medos e angústias que a fizeram ir em busca de auxílio externo.
"Acho que a pandemia deixou claro a necessidade de autocuidado. Sempre fui ansiosa, e usava o teatro como válvula de escape para extravasar. Como a rotina fluía bem, quando havia questões que me chateavam ou faziam mal, recorria aos amigos para desabafar. Mas depois que comecei a terapia, entendi que é um processo muito distante de conversar com pessoas próximas. É uma forma de se conhecer mais e alcançar a melhor versão de mim."

O X da questão

Tanto Thom quanto Bruna recorreram a um aplicativo gratuito para encontrar a ajuda que tanto precisavam. Ambos reconhecem que a conjuntura da pandemia acabou impulsionando a busca pelo atendimento psicológico, que antes era adiado pela falta de tempo, de dinheiro ou até pela ideia de que era possível dar conta dos incômodos sozinhos.

Thatiana Helena de Lima, coordenadora do curso de psicologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia), destaca que ainda existem algumas resistências ou preconceitos em relação a fazer terapia, o que explica o aumento da procura somente em situações de crises ou emergências, como as que estamos vivenciando atualmente. Da mesma maneira que ocorre com outras especialidades, não é preciso esperar chegar ao extremo ou ter provas físicas de que algo não vai bem para iniciar o cuidado com a saúde mental.

A docente explica que muitos dos quadros de mal-estar e depressão podem estar agravados por conta do distanciamento social e de todas as ameaças relacionadas ao coronavírus. Mas também é possível que a origem para esses distúrbios esteja ligada com sentimentos e perspectivas anteriores, que nunca tinham sido analisadas de maneira a melhorar as emoções e a forma de compreender as próprias reações.

Ares lembra que circunstâncias adversas podem levar ao crescimento pessoal. Uma vez que se aprende a encarar os conflitos e a suportar angústias, fica mais fácil desenvolver resiliência e tolerância. "A pandemia está levando as pessoas a se confrontarem com temas que antes encontravam modos de evitar ou postergar. Este momento é um convite à introspecção e nem todos têm facilidade. Vivemos numa sociedade que valoriza a extroversão e o recolhimento pode ser muito assustador para alguns."

Disk Divã

Com isso, têm crescido os canais de auxílio para quem se sente desamparado, afetado ou prejudicado com a pandemia. Como os serviços de plantão psicológico que funcionam por meio de telefone ou plataformas digitais, num espaço seguro de escuta que visa a regulação emocional e minimização do sofrimento agudo. Normalmente, o diálogo está voltado para entender o que está acontecendo, a partir de um viés de acolhimento, e termina com alguma orientação ou indicação de aconselhamento psicológico.

"O fato de receberem suporte pontual e serem ouvidas sem julgamento já promove sensação de segurança e apoio. Além disto, uma vez que são atendidas em suas necessidades, sentem que não estão sozinhas e que podem procurar pelo serviço em algum outro momento de angústia", explica Thais Ares. Apesar de cada caso ser singular e demandar intervenções diferentes, algumas pessoas conseguem se beneficiar de apenas uma ligação com o terapeuta, inclusive os que desejam lidar melhor com sintomas como o medo, ansiedades ou conflitos familiares relacionados ao isolamento social.

Tudo vai depender do motivo que levou a pessoa a procurar o atendimento, avalia Lima. "Caso tenha a ver com razões e histórias mais antigas, que vêm se desenrolando e progredindo ao longo dos anos, uma sessão não costuma ser suficiente, já que a psicoterapia é um processo mais longo que envolve uma atuação detalhada". Por outro lado, há pacientes que evoluem com terapias breves, de 5 a 10 encontros voltados para uma questão individual, e que depois desse curto período de suporte, seguem sozinhos com os recursos que desenvolveram.

Como buscar ajuda

Cada sujeito vivencia suas dores e emoções de maneira bastante singular, o que permite que haja variados tipos de intervenção. "O importante é não lidar com o sofrimento de maneira isolada e buscar auxílio de profissionais de saúde qualificados", ressalta Sarah Faria Abrão Teixeira, psicóloga e conselheira do CRP-SP (Conselho Regional de Psicologia de São Paulo).

Pode ser que um único contato seja suficiente para atender a demanda, nos chamados "acolhimentos psicológicos", prática diferente da psicoterapia, que envolve um procedimento mais longo. No atual contexto do isolamento social, são feitos por ligações ou chamadas de vídeo focadas na escuta, para tentar acalmar os pensamentos e tranquilizar as pessoas, com cerca de 30 minutos de duração.

As entidades de classe reconhecem o atendimento online como modalidade possível e recomendada para este momento. Mesmo quem nunca fez terapia, tem acesso a serviços oferecidos por profissionais da saúde mental remotamente, com sessões pontuais e gratuitas.

Vale lembrar que o SUS oferece atendimento por meio das UBS (Unidades Básicas de Saúde), CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e Ambulatórios de Saúde Mental, e os contatos podem ser encontrados nos sites dos órgãos municipais de cada região.

Veja alguns exemplos de serviços voltados para apoio e atendimento psicológico:

SOS Apoio Emocional - linha telefônica aberta para quem sente que precisa falar e conversar um pouco sobre a ameaça que sente diante da pandemia do coronavírus. O suporte é realizado por profissionais especializados em situações de luto, perdas e crise. Das 09h às 00h. Tel: (11) 98863-0550.

PROALU - Programa de Acolhimento ao Luto do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina - oferecem Acolhimento Breve ao Luto para pessoas enlutadas pelo coronavírus, por meio de uma visão de prevenção em Saúde Mental, visando minimizar risco de desenvolvimento de luto complicado ou outros quadros psicológicos ou psiquiátricos. Agendamento: enviar nome e telefone para o e-mail [email protected]

Aplicativo Macro Solidária - plataforma gratuita disponível a usuários de todo o Brasil com apoio psicológico, teleconsultas médicas e suporte jurídico, voltada para tirar dúvidas e dar aconselhamentos sobre as mudanças provocadas pelo surto do coronavírus. O Macro Solidária está disponível para iOs e Android.

Psicanálise na Praça Roosevelt - a iniciativa surgiu com consultas de 15 a 45 minutos, numa praça no centro de São Paulo. Agora acontecem por meio de videoconferência e o agendamento pode ser feito por meio da página do Facebook. As sessões acontecem aos sábados, das 11h às 14h.

Núcleo de Telessaúde (Nutes) - atendimento oferecido pela Universidade Federal de Pernambuco. Durante o período da pandemia, os teleatendimentos são voltados à população, enquanto as teleorientações são oferecidas a profissionais de saúde. Horário telepsicologia: terças-feiras, das 14h às 17h. Agendamento pelo site.

Conselho Federal de Psicologia: consulte pelo site os psicólogos cadastrados em todo o Brasil.

Fonte: UOL
Edição: C.S. 

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