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Este homem é o maior inimigo de homeopatia, acupuntura e companhia

Cientista alemão radicado no Reino Unido faz crítica às terapias alternativas e apresenta os caminhos para trazer mais racionalidade à prática da medicina.

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Publicado em: 26 de novembro de 2018
Autor das principais análises sobre homeopatia, Ernst não encontrou evidências de benefícios (Foto: Divulgação)

Ficar mais de 12 horas dentro de um avião deixa qualquer um fatigado. Mas o cansaço de cruzar 9 500 quilômetros e o oceano que separam Londres de São Paulo não impediu o médico Edzard Ernst, professor emérito da Universidade de Exeter, na Inglaterra, de conversar pacientemente com a imprensa. Pela primeira vez em nosso país, ele veio participar do lançamento do Instituto Questão de Ciência, organização que pretende orientar as decisões de políticas públicas baseadas nas melhores evidências obtidas por meio de trabalhos científicos.

Criador da primeira disciplina de medicina complementar numa faculdade no mundo, Ernst publicou ao longo de sua carreira 52 livros e mil artigos científicos. No meio do caminho, seus achados indicaram que muitas das abordagens terapêuticas alternativas não têm eficácia. Além do trabalho acadêmico, o professor mantém um site, em que faz análises sobre esses tratamentos e, claro, recebe muitas críticas e elogios.

Leia abaixo a entrevista com Edzard Ernst durante sua passagem pelo Brasil:

Como você definiria a medicina alternativa?
Não existe nenhuma boa definição. O fato é que temos muitas palavras para descrevê-la. Minha posição na Universidade de Exeter, por exemplo, era de medicina complementar. Temos também os termos medicina holística, medicina natural, medicina tradicional, medicina integrativa… Todos são muito populares. Embora essas palavras não signifiquem exatamente a mesma coisa, muitas vezes elas se sobrepõem. Infelizmente, não existe uma explicação que englobe todos esses tratamentos e métodos de diagnóstico.

Intuitivamente, eu penso que são as práticas não utilizadas por uma medicina convencional e não ensinadas nas faculdades de medicina. Toda vez que digo isso, eu hesito. Porque eu sei, por exemplo, que a homeopatia é disciplina de algumas escolas médicas brasileiras. Depois de 35 anos pesquisando essa área, eu cheguei à conclusão que todos os termos que citei anteriormente não fazem sentido e é melhor chamar cada terapia pelo seu nome próprio.

Ou seja, se vamos falar da acupuntura, utilizemos o termo acupuntura, o que, por si só, já é complicado, uma vez que existem diversas vertentes. Se falamos de homeopatia, usemos a homeopatia. Termos gerais e generalizadores são problemáticos.

Na sua opinião, quais os principais problemas em se valer das terapias alternativas: elas simplesmente não funcionam ou podem fazer mal?
Existem mais de 400 modalidades e terapias diferentes dentro da medicina alternativa. Dizer que elas não funcionam ou são danosas é um tipo de generalização perigosa. O que eu posso dizer é que a maioria delas não funciona e praticamente nenhuma é inofensiva. Elas geralmente são consideradas inócuas, mas só porque não olhamos com mais atenção aos seus efeitos colaterais. Se fizéssemos o mesmo que ocorre na medicina convencional, ao definir os eventos adversos de um medicamento, por exemplo, as terapias alternativas não continuariam a existir. O que eu não olho, eu não enxergo.

De todas essas terapias, existem algumas que são mais perigosas, seja por sua popularidade, seja por seus efeitos colaterais?
Considero a quiropraxia perigosa. Eu sei que ela não é muito popular aqui no Brasil. A fitoterapia também pode representar certa ameaça em alguns casos. Isso não é surpresa, uma vez que muitas plantas contêm componentes farmacêuticos ativos que podem ajudar e, ao mesmo tempo, prejudicar.

Gostaria de mencionar aqui a homeopatia. Os remédios homeopáticos, em sua maioria, não têm nada além de açúcar, mas mesmo assim eles podem ser muito danosos se utilizados como uma alternativa em doenças tratáveis por outros meios. Se sua mãe tem câncer e ela decide seguir com a homeopatia, por exemplo, isso claramente vai acelerar a sua morte. Então, dizer que esses tratamentos são inofensivos, mesmo que por si eles não representem um perigo direto, não é verdade.

Existe a possibilidade de uma terapia classificada como alternativa se tornar parte da medicina convencional?
O melhor exemplo para isso é na área de fitoterapia, particularmente o caso de um remédio chamado erva-de-são-joão. A planta foi estudada extensivamente e nós sabemos hoje em dia, com certeza, por meio dos trabalhos rigorosos, que ela é tão boa quanto antidepressivos convencionais.

Alguns céticos dirão que isso não significa muita coisa, porque até mesmo nos antidepressivos convencionais nós não temos muita certeza de seus efeitos. Mas nós sabemos que a erva-de-são-joão é melhor que placebo no tratamento da depressão leve ou moderada. E como eu disse anteriormente, ela traz junto também eventos adversos. O problema desse fitoterápico é que ele interage com uma série de outros medicamentos prescritos. Cerca de 50% de todos os fármacos interagem com ele e isso pode ser bem sério.

O Ministério da Saúde do Brasil mantém um programa que inclui 29 terapias alternativas no sistema público. Qual a sua opinião sobre iniciativas públicas desse tipo?
Eu não conheço esse programa em particular. Mas, no geral, se nós integramos tratamentos sem comprovação científica na rotina dos cuidados de saúde, estamos fazendo um desfavor a todo mundo. Isso não faz o sistema de saúde ficar mais eficiente, pelo contrário. Ele fica ainda mais caro. E, mais importante no meu ponto de vista, nós estamos fazendo uma zombaria do princípio e do conceito da medicina baseada em evidências. Ou levamos as evidências a sério, e aí temos que focar em tratamentos que sabemos trazer mais benefícios que malefícios, ou seguimos pelo caminho da medicina sem provas.

E como é o uso das medicinas alternativas no sistema de saúde de outros países?
Na Inglaterra, nós recentemente tivemos uma experiência interessante. O sistema de saúde público decidiu descontinuar o serviço de reembolso para a medicina homeopática. Eu acho que foi um importante passo na direção correta. Isso porque as evidências nos mostram que os remédios homeopáticos não são melhores que placebo. Isso não significa que a homeopatia desapareceu da superfície das ilhas britânicas, claro. Mas significa que o poder público não vai mais pagar por tratamentos que não façam sentido algum.

Dados mostram que 70% da população brasileira usa ou já usou algum tipo de medicina alternativa. Por que ela é tão popular?
Essa é uma boa questão, mas nada fácil de responder. Existem inúmeras razões para isso. Depende muito de quem você está falando. Imagine o exemplo de um paciente com câncer. Ele está desesperado e se segura na última fagulha de esperança. Provavelmente, ele já foi vítima de muitas falsas promessas por aí. Agora, se você pensar em alguém que é essencialmente saudável, tem muito dinheiro e usa esse ou aquele tratamento diferente, a motivação é completamente diferente. Falando de forma genérica, eu penso que é a imagem que os tratamentos alternativos têm de serem sutis, naturais e inofensivos. Isso é muito apelativo.

Outro ponto importante: esse fenômeno tem muito a ver com a sua profissão de jornalista. Muita informação errada é publicada e transmitida, particularmente nos meios digitais. Se você entrar na internet agora e procurar no Google por medicina alternativa, vão aparecer 50 milhões de sites. Em minha pesquisa, eu olho sistematicamente para muitos desses portais e sempre concluo que, ao seguir as orientações dessas reportagens, você só vai acelerar a chegada da sua morte.

Você mencionou o câncer. E sabemos que existem algumas áreas, como em tumores terminais ou em pacientes com dor crônica, em que a medicina tradicional muitas vezes não tem o que oferecer. Nesses casos, as terapias alternativas se tornam ainda mais instigantes?
Esses indivíduos estão desesperados, claro. E quanto maior o desespero, maior o apelo. Há muitas situações em que a medicina convencional não tem quase nada de curativo a oferecer mesmo. Vamos seguir o seu exemplo do paciente terminal com câncer. O movimento de cuidados paliativos para eles é de grande ajuda se você considera o cuidado com questões como as dores e o mal-estar. Mesmo nessas situações, existe muita coisa que a medicina tradicional pode fornecer sim. E muito pouco disponível na medicina alternativa.

A todo o momento são publicados trabalhos com bons resultados nos tratamentos alternativos. Como interpretá-los?
A quantidade de artigos que são divulgados na medicina alternativa é impressionante. São quase 2 mil por ano, se bem me lembro. O problema com muitos desses estudos é que eles são de uma qualidade muito ruim. Qual a razão disso? Primeiro, pesquisa de boa qualidade custa caro. Segundo, pesquisa de qualidade carece de experts. E pessoas engajadas nos trabalhos de medicina alternativa geralmente não são especialistas em nada. Eu conheço muitos deles e posso garantir que há muito mais promotores do que cientistas.

No meu ponto de vida, eles usam a pesquisa como um meio de se promover. A pesquisa é uma ferramenta para testar hipóteses. Esses pesquisadores muito frequentemente só querem confirmar os seus pontos de vista, o que basicamente é um mau uso da ciência.

Um dos principais argumentos de quem é favorável às terapias alternativas está na experiência pessoal. Como lidar com esse tipo de relato?
Uma pessoa muito mais esclarecida que eu certa vez me disse que as três palavras mais perigosas na medicina são “na minha experiência”. Porque sua experiência, ou a minha própria, pode estar completamente errada. Você começa um tratamento, se sente melhor e acha que foi aquela pílula que te fez se sentir melhor. Pode até ser o remédio, claro. Mas pode ser também uma série de outros fatores que não consideramos, como o efeito placebo ou a história natural daquela doença.

E aí eu penso que foi o tratamento alternativo que fez o efeito. Essa noção pode te enganar. Como paciente e como médico, é impossível dizer que eu te dou uma droga e essa é a razão da sua melhora. É por isso que precisamos da ciência, das pesquisas clínicas. Para diferenciar esse monte de fatores e identificar a verdadeira causa daquela melhora.

Você tem um blog na internet e recebe muitos comentários, vários deles negativos. Como você entende essas críticas?
Gosto muito desse meu blog, em que escrevo quase que diariamente. Faz 15 anos que percebi que escrever para os grandes periódicos científicos, como o The Lancet, é muito bom para minha carreira científica e acadêmica, mas isso não cria um verdadeiro progresso contra a medicina alternativa. Para combater essas terapias, é preciso se dirigir diretamente para os homens e mulheres que estão nas ruas. São essas pessoas que decidem, sem consultar o médico ou qualquer profissional de saúde, em iniciar algum tratamento do tipo.

Eu acredito que meu blog é importante e recebo muitos comentários realmente. Muitos deles são controversos, outros vêm com insultos. Se eu ganhasse 10 dólares para cada xingamento que recebi na internet, provavelmente já seria um homem rico. Mas é interessante. Eu aprendi como as pessoas pensam, quais argumentos mais usam. E é importante por essa necessidade de informação, pela quantidade de desinformação que existe por aí.

A atriz Gwyneth Paltrow divulgou em seu site uma técnica de vaporização vaginal, que instantaneamente se tornou uma febre na internet. As celebridades influenciam no uso das terapias alternativas?
Há alguns anos, eu publiquei um artigo chamado “Medicina Baseada em Celebridades”. Nós acompanhamos algumas dessas histórias. A Gwyneth Paltrow ainda não tinha entrado nesse mercado. Mas há vários exemplos disso. É depressivo ver o impacto enorme que esses famosos têm. Na Inglaterra, o maior de todos é o Príncipe Charles, que utiliza sua influência para promover a medicina alternativa. É deprimente porque nós, como cientistas, trabalhamos duro para fazer as nossas pesquisas e bastam três palavras de uma atriz de Hollywood para destruir tudo. É terrível! Voltando para a Gwyneth Paltrow, a questão é mais horrível ainda porque ela está se tornando uma bilionária por meio de uma empresa, em que ela vende e lucra com essas coisas.


Você acha que há espaço para pesquisar medicinas alternativas nas universidades?
Sem dúvida. Nem todos os aspectos da medicina alternativa são sem sentido. A fitoterapia, por exemplo. Eu tenho certeza que encontraremos, num futuro próximo, muitas moléculas efetivas nas plantas. Há uma necessidade, por exemplo, de novos antibióticos, porque estamos ficando sem opções para combater as bactérias. E não seria surpresa que a nova geração de antibióticos viesse de alguma fonte natural como, aliás, foi a penicilina. Nesse sentido, faz todo o sentido continuar pesquisando.

Se a medicina alternativa é tão popular, então seguramente é porque ela preenche alguns buracos da medicina tradicional. E isso se faz com pesquisa. Precisamos lembrar na medicina tradicional que olhar o cenário completo, o ser humano como um todo, é algo que está no âmago de nossa prática. Nós devemos ter em mente que o cuidado, a compaixão, a dedicação e o tempo são elementos importantes. Os médicos alternativos são ótimos nesses quesitos, enquanto a medicina convencional às vezes esquece da importância deles.


Fonte: Saúde
Edição: F.C.

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