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Especialistas publicam consenso para combater estigma da obesidade

Pesquisas indicam que o estigma da obesidade é muito difundido na sociedade e traz vários prejuízos para quem sofre com o problema.

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Publicado em: 13 de outubro de 2020

Imagem: Freepik

É frequente ver pessoas que são discriminadas por estarem com excesso de peso ou obesidade. Receber olhares estranhos ao comprar um assento diferenciado no avião ou escutar críticas sobre o que coloca no prato são exemplos de atitudes preconceituosas.

O estigma da obesidade pode estar presente no local de trabalho, em ambientes educacionais, em hospitais e clínicas médicas. Já se sabe que pode prejudicar a saúde, levando a danos físicos e psicológicos.

Diante disso, um grupo multidisciplinar de especialistas de vários países do mundo revisaram as evidências científicas sobre as causas e consequências do estigma da obesidade e publicaram um consenso na Nature Medicine. O objetivo é combater a discriminação e o preconceito relacionados ao peso, contribuindo para um tratamento mais digno e respeitoso para aqueles que sofrem com o excesso de peso e a obesidade.

O que é estigma?

O estigma é uma desvalorização e exclusão de qualquer pessoa que seja considerada anormal ou excepcional. Quanto ao estigma da obesidade, diz respeito a uma desvalorização social e depreciação de alguém pelo excesso de peso. Isso pode levar a atitudes negativas, como estereótipos e discriminação.

Os estereótipos baseados no peso incluem generalizações sobre quem sofre com excesso de peso ou obesidade. Geralmente são vistas como pessoas que não têm força de vontade, indisciplinadas, gulosas, preguiçosas, incompetentes e incapazes de aderirem aos tratamentos para perda de peso. Já a discriminação baseada no peso refere-se a formas evidentes de preconceito que leva a tratamentos injustos, como ter menos tempo de atendimento pelo profissional de saúde ou até receber salários menores por ter excesso de peso.

Estar com excesso de peso pode levar à internalização do estigma do peso, que ocorre quando a própria pessoa concorda e aplica os estereótipos a si mesmo, levando à auto-desvalorização.

Consequências do estigma da obesidade

A partir de diversas pesquisas, o consenso indica que o estigma da obesidade é uma questão bem difundida na sociedade. A prevalência de discriminação apresenta taxas mais altas entre aqueles com maior Índice de Massa Corporal (IMC) e entre as mulheres, quando comparadas com os homens.

Um estudo de 2018 citado pelos autores sugere que aproximadamente 40% a 50% de adultos norte-americanos com excesso de peso e obesidade sofrem internalização do estigma, e cerca de 20% experimentam isso em níveis elevados.

A mídia pode reforçar isso a partir de imagens e terminologias que atribuem à obesidade uma responsabilidade inteiramente pessoal. Mas os profissionais de saúde também podem colaborar com o estigma quando frequentemente colocam todas as causas dos problemas de saúde no peso. Por isso, não é incomum que aqueles que se sentem estigmatizados evitem consultas médicas, atrasando diagnósticos e tratamentos de doenças.

A internalização do estigma pode começar bem cedo. As crianças que sofrem com a obesidade infantil estão sujeitas a bullying e é possível que apresentem dificuldades de socialização e sejam mais suscetíveis a desenvolverem ansiedade e depressão.

Na verdade, em qualquer idade, quando a pessoa com obesidade aceita e internaliza o preconceito do qual é vítima, entra em um círculo vicioso, que pode ser muito prejudicial à saúde mental. Ao contrário do que muitos pensam, discriminar alguém pelo seu tamanho não o motiva a perder peso, mas pode levar a sintomas depressivos, ansiedade, baixa autoestima, estresse, aumento do consumo alimentar e até compulsão.

5 mitos sobre a obesidade

A noção de que as causas da obesidade dependem exclusivamente de questões pessoais, como preguiça, gula e falta de força de vontade, gera suposições que estão em desacordo com as evidências científicas. Os autores desmistificam 5 delas.

1. O peso corporal = calorias consumidas - calorias gastas

Essa equação quer dizer que o peso é resultado das calorias consumidas menos as calorias gastas. Isso é uma simplificação extrema do funcionamento do corpo humano que é muito mais complexo! Nesse caso, a obesidade seria causada simplesmente por um maior consumo de alimentos em relação ao gasto por atividade física, levando a um balanço energético positivo.

Na verdade, existem muitos fatores que contribuem para a obesidade e o ganho de peso, incluindo genéticos, hormonais, privação de sono, remédios, estado da microbiota e estresse. As pesquisas também sugerem que comer demais e falta de atividade física podem ser sintomas de obesidade, e não suas causas.

2. A obesidade é uma escolha de estilo de vida.

Os dados disponíveis mostram que a obesidade é reconhecida como um problema de saúde que afeta todo o mundo e não como uma escolha consciente.

3. A obesidade é uma opção.

Considerar a obesidade como opção é transferir toda a responsabilidade para o indivíduo, quando na verdade ela é um problema multifatorial, que envolve questões sociais, culturais, genéticas, emocionais, fisiológicas.

4. A obesidade severa é geralmente reversível ao comer menos e se exercitar mais.

Essa afirmação não tem apoio científico. Um grande número de estudos clínicos mostra que tentativas voluntárias de restringir a alimentação e se exercitar mais produzem apenas efeitos modestos e não sustentáveis no peso corporal da maioria dos indivíduos com obesidade grave.

Geralmente, ao aderir às dietas restritivas acontecem duas mudanças bem descritas: um aumento do apetite e uma redução da taxa metabólica basal (ou seja, a energia que gastamos em repouso para manter as funções vitais). Essa adaptação metabólica acontece porque nosso corpo entende que estamos passando por um momento de privação e promove a recuperação do peso.

O que os especialistas recomendam?

O consenso considera que o estigma da obesidade e a discriminação baseada no peso não devem ser tolerados e fornece uma lista com recomendações envolvendo diversos setores como: mídia, assistência médica e educação de prestadores de serviços de saúde, saúde pública, pesquisa e políticas/legislação.

Entre elas recomendam que:

  • a mídia não produza conteúdos discriminatórios e contribua com a mudança da narrativa em torno da obesidade;
  • as instituições acadêmicas e agências reguladoras incluam na formação aos profissionais de saúde a discussão das causas, mecanismos e tratamentos da obesidade de acordo com o consenso;
  • os profissionais de saúde demonstrem habilidades práticas livres de estigma;
  • haja infraestrutura apropriada para o atendimento e o gerenciamento de pessoas com obesidade.


Por um novo olhar sobre a obesidade

Esse consenso representa uma ótima iniciativa que assume o compromisso de discutir e combater a discriminação baseada no peso. Há muito tempo estou comunicando sobre esse assunto e especialmente sobre o modo como que as pessoas que sofrem com o excesso de peso são tratadas pelos profissionais de saúde. Por isso idealizei o Manifesto para um novo olhar sobre obesidade, um evento inédito de um dia de palestras e bate-papos, com o objetivo de discutir e rever o tratamento da obesidade, que tem falhado em todo o mundo.

Muita gente pode ver no combate ao estigma, uma apologia à obesidade. Isso é compreensível diante da enxurrada de informações que recebemos sobre comer cada vez menos e buscar um corpo magro.

No entanto, respeitar as pessoas que sofrem com excesso de peso e obesidade e entender que magreza não é sinônimo de saúde, contribui para que as pessoas estejam mais propensas a adotar um estilo de vida mais saudável.

O que se deseja é a adoção de um tratamento respeitoso e digno das pessoas, com foco na saúde e na transformação da relação com a comida e com o corpo.

Bon appétit!

Fonte: UOL (Viva Bem)
Texto: Sophie Deram
Imagem: Freepik
Edição: C.S. 

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