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Em uma década teremos carne sintética de laboratório?

O projeto e a manipulação da matéria em escala microscópica são dirigidos para o setor agroalimentar, sanitário, a biônica e a internet das coisas.

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Publicado em: 09 de agosto de 2019
Carne cultivada em laboratório a partir de células-tronco de vaca.DAVID PARRY/PA WIRE

A nanotecnologia (tecnologia dos materiais e das estruturas em que a ordem de grandeza é medida em nanômetros) é a roda do século XXI. Uma empresa desenvolveu nanoimpressões que poderão ser usadas com qualquer dispositivo eletrônico (celular, ipad, etc.) para que não seja necessário usar óculos ou lentes de contato. Um software gradua o problema de visão de cada usuário. Além disso, “dentro de 10 ou 15 anos a nanotecnologia oferecerá soluções como os nanorrobôs: robôs que circulam pela corrente sanguínea até as células tumorais sem afetar o resto do corpo”, diz Manuel Fuertes, diretor da Kiatt. Mas ainda é preciso dar muitos passos antes que seja possível. “Hoje, o desenvolvimento de robôs para ajudar na luta contra as doenças está em fase experimental”, diz Julio Mayol, diretor médico do Hospital Clínico San Carlos, em Madri.

Nos últimos 250 anos, nossa expectativa de vida dobrou. Passamos de 40 anos para ao menos 80. Durante as últimas décadas, os pesquisadores estudaram em profundidade muitas doenças, como Parkinson ou Alzheimer, porque, além de vivermos mais anos, queremos ter maior qualidade de vida. “Estão sendo desenvolvidas tecnologias que, com frequências de voz ou nos olhos, poderemos detectar esse tipo de doenças”, diz Fuertes. No entanto, essas tecnologias ainda não foram levadas ao terreno prático. “A robótica é usada na saúde principalmente para guiar cirurgias, na preparação de medicamentos e para analisar dados e tomar decisões no tratamento de algumas doenças”, diz Mayol.

Cerca de 25% da população mundial terá mais de 50 anos em 2050. Os desafios para o futuro próximo começam com mudanças no setor nanotecnológico, agroalimentar, na detecção de doenças com inteligência artificial, no desenvolvimento maciço da biônica até a Internet das coisas para ter fábricas 4.0 mais seguras e preditivas e smart cities.

“A pessoa com deficiência de hoje será o supercapacitado do futuro”, diz Fuertes. O desenvolvimento de sensores de visão permite que os cegos distingam maneiras de se deslocar de forma mais independente. Dispositivos estão sendo gerados para distinguir essas formas em 3D. “No futuro, poderemos ver objetos em alta definição ou de maneira supertelescópica e ferramentas que melhorem a visão de um olho humano saudável ou ver uma cor que não é possível com um olho com uma capacidade de visão normal”, diz Fuertes. “Também poderemos ouvir frequências que o ouvido humano não pode ouvir atualmente”, acrescenta. Além disso, está convencido de que uma grande mudança acontecerá quando uma pessoa saudável decidir mudar uma parte de seu corpo por uma parte biônica sem ter nenhum problema de saúde, apenas para ser superior.

Um cientista indiano fabricou um pequeno recipiente onde se pode colocar água não potável e, ao passar por um filtro nanotecnológico, torna-se potável. “Se conseguirmos canalizar esse tipo de invenções, poderemos oferecer água potável a toda a humanidade”, diz Fuertes.

Acontecerão grandes mudanças na alimentação. “Em dez ou quinze anos, serão geradas células para produzir ‘super carne’ ou carne sintética, de laboratório. Na China, apenas 10% da superfície é cultivável e não é fácil suprir toda a demanda”, diz Fuertes. Em 2013, sua empresa apoiou um projeto com um biorreator celular que produz células de maneira maciça que podem ser usadas em muitos setores, entre eles o da carne sintética. Além disso, o empresário acredita que consumir essa carne não oferece riscos. “Com o passar dos anos, é muito raro que haja problemas porque os controles de qualidade estão se tornando cada vez mais sérios e, na Espanha, são ainda mais rigorosos do que em países como o Reino Unido”, diz Fuertes.

‘Internet of things’ ou otimização perfeita
Atualmente, existem cerca de 23 bilhões de dispositivos conectados entre si e estima-se que até 2050 haverá 100 bilhões de dispositivos conectados. A internet of things, ou internet das coisas, tem a ver com as conexões. “São todos os dispositivos conectados a outros dispositivos gerenciados pela Internet. São os dispositivos lúdicos, os de uso pessoal ou os medidores de luz, de água, etc”, explica Eusébio Nieva, diretor da Checkpoint na Espanha e em Portugal.

Um dos usos da internet das coisas serão as cidades inteligentes. Nieva acredita que serão comuns em um futuro muito próximo. “Hoje, muitos fabricantes estão voltados para automatizar tudo. Essas cidades terão desde semáforos adaptativos que mudam em função do tráfego ou linhas de ônibus autônomas”, diz Nieva. O problema da poluição em cidades como Madri também poderá ser resolvido. Os novos sistemas permitem medir os níveis de poluição com sensores precisos em diferentes regiões da cidade e, assim, será possível adotar soluções baseadas em dados. Em resumo, otimizar melhor os recursos.

A sensorização completa da zona rural para obter a maior produtividade sem influenciar negativamente no meio ambiente já é uma realidade na Espanha. “Muitas empresas de Murcia ou de Almeria se tornaram fábricas de alta tecnologia, já não têm nada a ver com a agricultura tradicional”, explica Manuel Fuertes, diretor da Kiatt.

Os especialistas dizem que estamos vivendo a aceleração da aceleração. A inovação que acontece em um ano equivale a 200 anos em avanços. O tecnológico, eletrônico e digital estão se unindo para melhorar a vida das pessoas, mas há alguns desafios, como a adaptação. “Precisamos que essas mudanças sejam progressivas, embora tudo o que está mudando ou prestes a mudar nos obrigará a questionar abordagens que ainda nem imaginamos”, diz Fuertes. Outros especialistas não querem adiantar nada, sem saber o que nos espera. “É difícil saber o que pensaremos no futuro, porque nós, humanos, pensamos de maneira linear e as mudanças não acontecem de maneira linear”, conclui o doutor Mayol.


Fonte: ElPais
Edição: F.C.

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