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ARTIGOS

Vivendo bem até os cem

Lindaura é a típica garota moderna: ágil, otimista, independente, e sempre disposta a enfrentar desafios.

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Publicado em: 30 de setembro de 2004

Lindaura é a típica garota moderna: ágil, otimista, independente, e sempre disposta a enfrentar desafios. Disponível, assume como seus os problemas dos que lhe são caros; delgada como um manequim, dá prazer e alegria vê-la, corpinho jovial, saindo para sua caminhada diária. Sua mente atenta e aberta se manifesta naquele constante brilho de olhos inquietos e curiosos.

Não há nada de original neste relato; afinal, garotas como esta você encontra muitas, alí e acolá. A diferença é que Lindaura tem 74 anos.

Melhor dizendo, tia Lindaura; que em sua casinha pequena, na rua Tibúrcio Cavalcante, na Fortaleza da década de 60 abrigava com carinho, doçura e amor, os seus sete filhos, e os incontáveis parentes, que alí aportavam nos momentos mais inoportunos e desavisados, em busca das mais variadas formas de apoio. Naquela mesa franca e farta este sobrinho, o José do Dantas, sempre encontrava o prato de almoço, que nas casas das tias ricas lhe era negado.

Reví tia Lindaura recentemente, e, como os bons vinhos, a encontrei mais encantadora e embriagante. Sua prática de vida poderia ser definida por uma palavra: tolerância. Sem jamais envolver-se em conflitos, querelas ou julgamentos, para ela não existem culpas, nem castigos, nem trapaças. E assim, e por isso, Tia Lindaura não conhece o sentido da palavra "stress".
E estas reflexões me remetem a Gorgis de Leontini, nascido em 48 a.C., na região que hoje corresponde à Sicília, tendo alí vivido a maior parte de sua vida. Como tributo a seus dotes oratórios uma estátua de ouro, que ele próprio inaugurou, foi erguida em sua honra, em Delphi.

Gorgis morreu com a invejável idade de 109 anos. Exato, 109 anos! Perguntado sobre o segredo de sua longevidade, ele disse: - "O segredo é nunca tomar partido de outros !". Ou seja, Gorgis e tia Lindaura fazem parte do "clube" daqueles que sabem evitar, através de um estado de espírito positivo, os efeitos destruidores do "stress", palavra que dá nome às hostilidades do meio ambiente.
Vários estudos clínicos e epidemiológicos têm demonstrado que a maneira como reagimos às agressões do ambiente, e a qualidade dos nossos contatos sociais, exercem um grande impacto sobre a eficiência de nossas defesas imunológicas, ou seja, sobre a qualidade de nossa capacidade de resistir aos efeitos do tempo e das doenças.

A grande maioria dos médicos ainda despreza a influência da relação mente/corpo na capacidade de nos mantermos saudáveis, porém pesquisadores têm constatado, através da biologia molecular, que os nossos sofrimentos físicos e emocionais estão ligados em sua maioria ao nosso estilo de vida: como encaramos a existência e seus desafios, nosso nível de atividades físicas, nossa alimentação; além da maneira como administramos nossos desejos, sonhos, alegrias e frustrações.

Está demonstrada uma relação intensa entre estado emocional, estado imunológico, funcionamento das glândulas endócrinas e sistema nervoso, que se comunicam continuamente, uns com os outros, através de peptídeos transportados pela corrente sanguínea. E o mais instigante: todos estes sistemas se beneficiam intensamente da prática de atividades físicas constantes, regulares.
Em 1996, num estudo da John Hopkins School of Hygiene and Public Health evidenciou-se a relação entre ataques cardíacos e depressão: após acompanharem 1.551 pessoas durante 13 anos, os pesquisadores observaram que as pessoas deprimidas sofriam ataques cardíacos quatro vezes mais que os não depressivos. Aliás, estudos têm evidenciado que níveis altos de "stress" estão mais relacionados a mortalidade que pressão alta ou elevação das taxas de colesterol ou triglicerídios.

Está claro que nosso sistema imunológico, ou seja, nosso exército de defesa contra a grande maioria das doenças, é comandado pelo nosso estado emocional.
Raiva, tristeza, depressão, desesperança, ausência de objetivos ou projetos de vida são condições diretamente relacionadas a doenças como herpes, problemas intestinais, osteoporose, doença cardíaca e câncer de mama, entre outras condições. Quando encaramos positivamente os desafios e as ameaças que nos surgem no dia-a-dia, nosso corpo, nosso organismo, lá dentro, no nosso interior, interpreta isso como um comando para enfrentar as doenças, as agressões internas.

Se, ao contrário, nos amesquinhamos ou fugimos às lutas aqui de fora, lá dentro nossa mente e nosso sistema imunológico interpretarão esta atitude como um desejo de entrega, de desesperança, de morte. Não duvidemos, o crescimento e o desenvolvimento de qualquer pessoa é, como o próprio curso da evolução humana, uma luta. Uma luta cotidiana, na qual só sobrevivem os alegres, os otimistas, os que não cultivam uma alma pequena.

Portanto, agora tanto os médicos quanto seus clientes começarão a se interessar muito por questões como condições emocionais e estilos de vida. Mais que indicar usos de remédios para tratar doenças, os médicos deverão nos receitar tratamentos para evitar doenças, tais como: 1. caminhada com 45 minutos de duração, de dois em dois dias ; 2.escolha de um lazer regular e que lhe dê satisfação (música, leitura, pintura, natação, jardinagem, tênis, academia de musculação, hidroginástica, ioga, passear e conversar com crianças, ciclismo); 3. aprender a desfrutar da vida, cultivando amizades e afinidades com pessoas das quais você realmente gosta, não se violentando pelas conveniências sociais, familiares ou profissionais.

E, em caso de dúvidas de como se tornar e permanecer saudável, não se acanhe: vá visitar tia Lindaura; certamente, com toda a simpatia, ela lhe fornecerá a fórmula.

José Cerqueira Dantas

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