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Isolado em casa? Aproveite para comer mais caseiro e menos processado

Para aqueles que podem aderir ao isolamento social, a sugestão é aproveitar essa situação para melhorar a sua alimentação, especialmente cozinhando mais.

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Publicado em: 23 de março de 2020

Imagem: iStock

Estamos passando por um momento delicado e inédito. Como sabem, em 2019 foi descoberto o coronavírus. Ele provoca uma doença infecciosa (COVID-19) que surgiu na China e se alastrou por praticamente todo o mundo. Aqui no Brasil o número de casos têm aumentado e medidas precisam ser tomadas por todos nós.

Os sintomas mais comuns dessa doença são febre, tosse e falta de ar. Ela pode ser transmitida rapidamente e o Ministério da Saúde nos dá algumas recomendações para reduzir o contágio, entre elas: lavar as mãos regularmente com água e sabão e/ou utilizando álcool, evitar aglomerações e manter certa distância das pessoas, evitando abraços e apertos de mão. Também se recomenda ficar em casa, se possível, para proteger-se como também proteger as outras pessoas com quem poderíamos ter contato.

Para aqueles que podem aderir ao isolamento social, minha sugestão é aproveitar essa situação para melhorar a sua alimentação, especialmente cozinhando mais. Essa é uma forma de autocuidado que contribui para reduzir nosso consumo de alimentos processados e, assim, evitar o comprometimento de informações que o intestino envia para o cérebro ao nos alimentarmos e no processo de escolha alimentar. É o que mostram Dana Small e Alexandra DiFeliceantonio, pesquisadoras da Escola de Medicina da Universidade de Yale, em um artigo interessante publicado na revista Science. Vamos entender melhor?

Informações nutricionais enviadas ao cérebro regulam o reforço e a escolha alimentares

Para discutir o papel do intestino na comunicação de informações ao cérebro, as autoras, inicialmente, apresentam estudos experimentais com ratos, que ao serem alimentados com refeições de diferentes volumes, mas com o mesmo valor energético, "calculavam" a quantidade de alimentos necessária para manter a ingestão calórica ao longo dos dias. Com isso, eles acabavam desenvolvendo uma preferência por alimentos nutritivos, que forneciam mais energia, como o açúcar. Assim, quando a glicose era utilizada como combustível, um sinal era transmitido ao cérebro, orientando a ingestão e aumentando os níveis de dopamina, um neurotransmissor envolvido na motivação e recompensa.

Existem evidências de que algo similar acontece com os seres humanos. Quando consumimos uma bebida com açúcar, os níveis de glicose no sangue aumentam, assim como a dopamina. O mesmo acontece quando ingerimos gorduras, ainda que por caminhos diferentes.

Nesses casos, acontece o reforço alimentar, um importante determinante da ingestão alimentar. Ao consumirmos um alimento, a dopamina é liberada e sua atividade pode gerar uma recompensa, aumentando a motivação para a obtenção de comida, ou seja, o reforço.

O mais interessante é que o reforço alimentar pode ser independente do prazer sensorial e do fato de gostarmos de determinado alimento. Por que isso acontece? As autoras sugerem uma explicação. De acordo com elas, todos os organismos precisam de energia para sobreviver, e a maioria deles não possui funções cerebrais superiores que permitem a busca de alimentos apenas por meio da consciência. Assim, esse mecanismo é uma forma de transmitir as informações dos alimentos para o cérebro, regulando a ingestão alimentar e a obtenção de fontes úteis de energia, independentemente dos processos conscientes.

Consequentemente, é importante que as informações nutricionais geradas pelo intestino cheguem ao cérebro sem interferências. Porém, em alguns casos, isso pode não acontecer, gerando consequências para o modo como nos alimentamos.

A sinalização do intestino para o cérebro pode ser afetada pelos alimentos processados

Está claro que o ambiente alimentar moderno pode afetar nosso comportamento alimentar e contribuir com o aumento da prevalência de obesidade. No entanto, há controvérsias quanto aos mecanismos precisos pelos quais isso acontece.

Os alimentos processados geralmente apresentam muitos ingredientes e aditivos alimentares, tendem a ser densos em energias e podem apresentar combinações de nutrientes em quantidades que os tornam hiperpalatáveis.

O consumo desses alimentos pode aumentar o reforço alimentar, nos colocando em um círculo vicioso que nos leva a comer esses alimentos de forma exagerada.

Os adoçantes, como a sucralose e o aspartame, não contêm calorias e são frequentemente adicionados a alimentos e bebidas, que também contêm açúcares, como glicose e frutose, para conferir maior doçura e palatabilidade. Ao ler os rótulos dos alimentos, você poderá encontrar diversas bebidas e lácteos que apresentam tanto adoçantes quanto açúcares em sua composição. Já nos alimentos in natura, o sabor doce é proporcional ao teor de açúcar e também à quantidade de energia do alimento.

De acordo com Ana Small e Alexandra DiFeliceantonio, estudos sugerem que consumir uma bebida de baixa caloria que apresenta uma combinação de adoçantes e açúcares pode impulsionar um reforço alimentar e gerar um consumo alimentar exagerado muito mais do que uma bebida de alta caloria que não apresenta essa combinação. Esses alimentos não estão permitindo uma comunicação eficaz com o cérebro, o que pode levar à geração de sinais imprecisos na regulação da recompensa, como também no metabolismo de nutrientes e armazenamento de energia. Ou seja, os alimentos diet e light podem não ser a melhor opção.

Outra pesquisa que investiga a relação entre os alimentos processados e o comprometimento da sinalização intestinal compara alimentos que contêm principalmente gorduras ou carboidratos ou uma combinação entre esses dois nutrientes. Comidas que apresentam esses nutrientes de forma combinada não são facilmente encontrados na natureza, mas seu consumo geralmente proporciona bastante prazer (como chocolates ou rosquinhas). Desse modo, os voluntários do estudo foram expostos a esses três tipos de alimentos, todos com a mesma quantidade de calorias e considerados igualmente saborosos, e a maioria preferiu aqueles que apresentavam uma combinação de gorduras e carboidratos. Isso refletiu no aumento da dopamina e explica, em partes, porque é difícil resistir a alimentos com determinada combinação de nutrientes.

Dê preferência aos alimentos caseiros!

Escolher o que comer não é uma tarefa fácil. Como as pesquisadoras mostram nessa discussão, o nosso consumo alimentar é determinado por percepções conscientes dos alimentos, como o sabor, o custo e a conveniência. Mas também por questões inconscientes, que nos levam a fazer determinadas escolhas, sem sabermos bem o porquê.

É importante considerar que a alimentação é complexa e que fatores diversos interagem na regulação do nosso comportamento alimentar, sendo necessário considerá-los como um todo para que possamos pensar formas de tratar os problemas alimentares, como a obesidade, com ciência e consciência.

Mais estudos que investiguem como os alimentos processados afetam o nosso comportamento alimentar são necessários. Até o momento, porém, está claro que o melhor é fazer dos alimentos frescos e caseiros a base da nossa alimentação. E a melhor forma para isso é cozinhar!

Nesse momento difícil pelo qual estamos passando, que tal aproveitar para selecionar uma receita e fazer um prato com a ajuda da família?

Com essa atitude você terá mais saúde e bem-estar, pois o ato de cozinhar:

  • Permite termos mais consciência do que estamos consumindo;

  • Proporciona um maior contato com os alimentos;

  • Ajuda a melhorarmos nossa relação com a comida;

  • Permite estreitar os vínculos entre a família;

  • É uma forma de prevenir a obesidade e o sobrepeso;

  • Contribui para fortalecer nosso sistema imunológico;

  • Depois de cozinhar, prepare a mesa e aproveite o momento para comer junto, sem culpa e em paz com a comida!

Bon appétit!

Fonte: UOL
Texto: Sophie Deram
Edção: C.S.

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