(86) 3131-1234

ARTIGOS

A saúde mental em tempos de redes sociais e notícias 24h

Qual é sua relação com a tecnologia? Ela te ajuda ou atrapalha?

Tamanho da letra:
A
A
Publicado em: 20 de setembro de 2019
Imagem: Pixabay

Já contei aqui na coluna que a ansiedade está na minha vida desde a infância. Numa era em que quase ninguém tinha computador em casa e havia uma fila de meses para comprar uma linha de telefone celular, minha mente já pregava peças em mim. A tecnologia ainda não tinha nada a ver com aquilo.

Quando tinha 15 anos, tive minha primeira conexão à internet. Aos 17, o primeiro celular, que apenas fazia ligações e mandava mensagens de texto. Smartphone fui ter com uns 25 anos, mais ou menos na mesma época em que comprei um laptop para trabalhar em qualquer lugar que tivesse tomada e conexão à internet.

Estou descrevendo meu inventário tecnológico para mostrar duas coisas: (1) minha ansiedade não nasceu com o uso da tecnologia; (2) ao passar dos anos, passei a usar cada vez mais aparelhos, aparatos e aplicativos para realizar as tarefas do dia a dia. Conforme eu (e a torcida do Flamengo) descobrimos, apesar de extremamente útil, a hiperconectividade é terreno fértil para transtornos de saúde mental.

Uma pesquisa do serviço público de saúde do Reino Unido mostrou que redes sociais têm efeitos negativos em jovens de 14 a 24 anos. A pior delas, de acordo com o estudo, é o Instagram, que tem impacto no sono, na autoimagem e o chamado FOMO (“medo de ficar de fora”, em inglês). Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Psiquiatras descobriu que 45% das pessoas acham que as redes sociais têm efeitos negativos na saúde mental.

No começo, as plataformas sociais eram um lugar onde podíamos no conectar com pessoas conhecidas e com interesses parecidos aos nossos. Quem é tiozinho o suficiente para ter usado o Orkut sabe como ele era diferente do que temos hoje, com Twitter, Facebook, Instagram, Snapchat e outras. Claro que há conexão; mas há também agressividade em excesso, intolerância à opinião alheia e necessidade de retratar vidas pessoais como se fossem perfeitas. Talvez isso explique esse mal-estar que as duas pesquisas identificam.

Outra coisa trazida pelas redes e os smartphones foi um acesso quase ilimitado a um mundo infinito de informações em praticamente qualquer local e a qualquer hora. Atire o primeiro iPhone quem nunca ficou lendo notícias no telefone deitado na cama antes de dormir e ao acordar. Substitua notícias por mensagens de texto, tweets, posts no Facebook. Agora temos relógios integrados aos smartphones, capazes de nos manter ainda mais conectados.

Tudo isso cria um cenário propício para o desencadeamento da ansiedade. O tempo todo estamos expostos às notícias, às vidas alheias e ficamos disponíveis para receber e mandar mensagens, compartilhar o que estamos fazendo e pensando. Não há descanso. Falo por mim. Recebo dezenas de notificações por dia, de diversas fontes de notícias: jornais, aplicativos, estações de rádio. Tenho perfis pessoais no Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn. Administro os perfis Falando de Depressão e Me Explica no Facebook, Twitter e Instagram.

Não quero ser apocalíptico, apesar de estar falando sobretudo dos efeitos negativos da tecnologia em nossas vidas. Mas é preciso reconhecer que estamos diante de um potencial problema. Já sabemos que o design de certos aplicativos é pensado para causar “vício” nos usuários. Para quem tem ansiedade crônica e depressão, os aparelhos tecnológicos podem ser mais uma importante barreira para o equilíbrio.

Especialmente em dias como os atuais, em que o noticiário parece tão desolador. Crises econômicas nacionais e mundiais, guerras, a já citada polarização política, a mudança climática. Estudos mostram que notícias ruins podem afetar a visão de mundo das pessoas e deixa-las mais ansiosas não apenas em relação a questões mais gerais, mas também em suas vidas pessoais. Pesquisa da Associação Americana de Psicologia mostrou que metade dos americanos fica estressado com as notícias. Um em cada dez diz checar o noticiário a cada hora. Um quinto (20%) está constantemente de olho nas redes sociais.

Os neurocientistas afirmam que nosso cérebro está configurado para analisar ameaças o tempo todo e nos manter a salvo de perigos. Por isso, apesar de ficarmos estressados lendo notícias ruins e posts que nos deixam ansiosos, temos uma grande capacidade de ficar fazendo isso por horas a fio, seguindo nosso instinto de sobrevivência. Isso pode explicar o porquê de notícias negativas e sensacionalistas fazerem tanto sucesso. Ao nos sabermos quais são os “perigos” do mundo, temos a sensação de que estamos nos protegendo deles. Mas, no fundo, o que acabamos fazendo é nos estressando desnecessariamente.

Você vai se perguntar se eu estou pregando que deixemos todos de ler notícias e de usar redes sociais. Justo eu, um jornalista profissional, colunista de um grande site que depende das redes sociais para divulgar seus trabalhos? Não é bem isso. Pessoalmente, como eu disse, creio que há muitas vantagens nas ferramentas que temos hoje em dia. Posso entrar em contato com pessoas que estão em diversos lugares do mundo e conversar com elas via vídeo. Por mensagem de texto, consigo trabalhar à distância de maneira eficiente. Ouço música de maneira ilimitada. Leio o New York Times, a BBC, a New Yorker sem sair do meu sofá.

Mas, como diz o jornalista Dan Harris, estamos submetendo uma geração inteira de seres humanos a um experimento coletivo cujo resultado desconhecemos. A tecnologia evolui de maneira impressionante e o mundo muda de dois em dois anos. Para quem tem transtornos de saúde mental, a constante exposição a informações, notificações, fotos, pode ter consequências sérias.

Não vou dar dicas de como lidar com isso até porque não tenho as respostas. Vejo, no entanto, a necessidade de reflexão séria. Até onde a tecnologia nos ajuda? Como ela está nos afetando? Será que ficar conectado o tempo todo é uma bênção ou maldição? Espero ajudar a responder a essas perguntas nas próximas semanas. Uma coisa, no entanto, estou fazendo. Antes de me deitar, coloco o celular numa gaveta longe da cama e a fecho. Sei que se ele estiver no criado mudo, disponível, vou ficar rolando a tela infinitamente e estragar meu sono e calma da qual necessito para conseguir dormir.

E você? Qual é sua relação com a tecnologia? Ela te ajuda ou atrapalha?

Fonte: Vida Simples
Texto: Diogo Rodrigues
Edição: C.S. 

Comentários

Nenhum comentário cadastrado. Seja o primeiro!





Deixe seu comentário

Nome*
Email*
Verificação*
Seu comentário*