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ARTIGOS

A Ilusão do Eterno

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Publicado em: 17 de fevereiro de 2005

Ítalo Calvino viveu até os 58 anos, tendo falecido em 1985. Foi uma existência incrível: nasceu em Cuba, filho de pais judeus, mudou-se para a Itália, lutou contra o fascismo e, sobretudo, foi um grande intelectual. Uma de suas obras, chamada PORQUE LER OS CLÁSSICOS, nos explica a importância de lermos as obras que são as raízes da cultura ocidental: de Xenofonte, Ovídio e Plínio, a Flaubert, Tolstoi e Borges.

 

Como tem razão, o Calvino! Se nos fosse dado ler, ainda nos bancos do colégio, os clássicos da literatura grega, conheceríamos Prometeu, aquele que transgrediu a condição humana, tornando-se presa de Nêmesis, por ter tentado fazer sombra aos deuses. Movido por suprema ambição e heroísmo, ele se eleva acima das medidas humanas e, em sua presunção sem limites, furta o fogo celeste, sonhando com a vida eterna. Desde então Nêmesis agarra-o, e o rancor do Olimpo acorrenta Prometeu a um rochedo do Cáucaso, onde  todos os dias uma águia vem devorar-lhe aos poucos o fígado. O sofrimento sem fim e sem esperança lembrará para sempre que o herói ambicioso não pode fugir à vingança cósmica.

 

Qual foi o erro de Prometeu? Seu maior erro deveu-se ao engano de não perceber que podemos mudar nossa aparência, não nossa natureza. Hoje, o desejo de eternidade tornou-se mercadoria, e a indústria cultural massificou sua busca ritualizada, não havendo mais quem fixe limites à loucura dos sonhos. A sociedade moderna assiste, assim, a realização material coletiva do pesadelo de Prometeu. Manter aceso o fogo da juventude tornou todas as mulheres vitimas do delírio de Prometeu, e de seu trágico destino.

 

Até 150 anos atrás a expectativa de duração e qualidade de vida para as mulheres era limitada. Nos últimos 80 anos ocorreu uma notável melhoria deste cenário: hoje as mulheres ocidentais vivem em média 65 anos, sobretudo quando se considera os grupos familiares de média e alta renda. Todavia, um espectro ronda as mulheres na faixa dos 45 a 50 anos de idade: A MENOPAUSA.

 

Ora, vejam só, depois de tantas vitórias dos movimentos de liberação feminina, podendo trabalhar, estudar, circular como e com quem bem entender; podendo divorciar-se de todos os tipos de repressão social inconveniente, a mulher vê-se na meia-idade, no momento em que atinge seu maior nível de maturidade, auto-estima e independência; submetida a ondas de calor, rugas e celulites, perda de elasticidade da pele, sensações de desânimo e tristeza, frigidez sexual, além de outras tantas mazelas.  

 

E agora, doutor? Fez-se, então, a luz – criada a demanda, surgiu o produto ! A indústria farmacêutica, com seu formidável e onipotente arsenal de propaganda, aliada a uma entusiasmada ordem médica proclamou: conquistamos o fogo celeste! Foi lançada, com grande barulho midiático e histérica aprovação médica, a fantástica porção miraculosa denominada T.R.H. ou Terapia de Reposição Hormonal.

 

O empenho em divulgar o “milagre” foi tão grande que em 1998 uma famosa médica norte-americana não fez por menos, e finalizou uma conferência com uma radicalização típica dos antigos propagandistas de drogas miraculosas: “As vantagens da reposição hormonal são tantas, que negar à mulher de meia-idade o direito de usufruir seus benefícios é conduta antiética”. Quem é médico conhece o risco que representa aos olhos da rigorosa ordem médica o rótulo de antiético, pois, nos dias atuais, para esse profissional, a acusação de conduta antiética pode representar o risco de sérias penalidades para o acusado.

 

A relação incestuosa entre as grandes corporações farmacêuticas e prestigiadas autoridades médicas nunca ficou tão evidente quanto na massificação universal das vantagens da reposição hormonal – rapidamente tornou-se sinônimo de desonestidade, de não integridade profissional, deixar de recomendar de modo veemente às mulheres de meia-idade o uso da T.R.H., que logo passou a ser indicada para todas as mulheres nos anos que antecedem a última menstruação, sendo recomendada sua manutenção  pelo resto da vida.

 

Para os fabricantes de hormônios foi uma maravilha: um enorme crescimento de faturamento. Para os ginecologistas a nova moda triplicou o fluxo de clientes nos consultórios. As revistas de grande circulação, os semanários femininos, os programas de TV foram também convidados a participar da nova cruzada. Para ser moderna, ter vigor e energia: faça T.R.H! Para reduzir o colesterol, acabar com a osteoporose, rejuvenescer a pele, melhorar a memória e espantar a depressão: faça T.R.H.! Para evitar doenças do coração, evitar fraturas ósseas e infecções urinárias: venha para a T.R.H! Para não envelhecer, para transar bem, para permanecer jovem: só com a T.R.H.! E tudo corria às mil maravilhas...

 

Daí, em julho de 2002 a “bomba” explodiu: o National Institute of Health, nos Estados Unidos, interrompeu as pressas um estudo que vinha fazendo, que consistia no acompanhamento de 16.600 mulheres com idade entre 50 e 79 anos, para avaliar os riscos e os benefícios da T.R.H. Os resultados preliminares já eram tão gritantes que as autoridades governamentais anunciaram que, vendida como arma para melhorar a saúde e a qualidade de vida das mulheres, a T.R.H. tinha-se revelado um perigo, pois além de não evitar doenças, a T.R.H. aumentou em 26 % a incidência do câncer de mama, em 29 % os ataques do coração, em 41 % os derrames cerebrais e em 113 % as embolias pulmonares. Além disso, após os 65 anos de idade, as mulheres usando T.R.H. passaram a ter um risco dobrado de desenvolverem doenças neurológicas demenciais.

 

Entre os médicos esclarecidos não houve surpresas, pois eles já sabiam que o elemento hormonal desempenha um fator determinante na origem e no desenvolvimento dos canceres ginecológicos. As mamas de mulheres que iniciavam T.R.H. rapidamente tornavam-se túrgidas, densas, por intensa proliferação dos tecidos glandulares (dos quais se origina o tumor). Ora, se receitamos medicamentos bloqueadores de hormônios para interromper o desenvolvimento de células cancerígenas, está claro que sabemos do risco que representa a administração prolongada da explosiva combinação de estrógeno + progesterona. Aliás, há mais de vinte anos vários pesquisadores franceses já afirmavam claramente: “os estrogênios são causadores de câncer da mama”.

 

O verdadeiro, seguro e altamente eficaz tratamento para os efeitos do tempo sobre o organismo feminino, assim como sobre o masculino, já era conhecido pelos chineses, há mais de 1.000 anos: dieta leve (à base de frutas, verduras e carne branca, evitando gorduras), atividades físicas regulares (caminhadas, musculação, natação); fuga do cigarro e do álcool; combate ao stress (através de esportes, ioga, do-in, atividades culturais – música, leitura, etc), 8 horas de sono por dia, e uma atividade profissional, uma ocupação através da qual a pessoa se sinta produtiva, inserida, estimulada.

 

E atualmente, como as coisas estão? Ah, os fabricantes de hormônios e seus propagandistas não desistirão facilmente, principalmente nos países do 3º mundo: por aqui ainda há muita gente defendendo a T.R.H., e ganhando com isto. Afinal, ainda há muita gente, mesmo no mundo científico, que ainda diz duvidar da relação causa-efeito entre cigarro e câncer do pulmão.

 

Disse-me, outro dia, uma repórter de T.V., que preparava uma matéria sobre este  tema, estar sendo difícil encontrar um médico que  se  atrevesse a manifestar-se publicamente contra a T.R.H. É compreensível, afinal seus colegas poderão considerá-lo antiético. No momento, a astúcia é sofisticar o discurso: vamos usar doses mínimas; vamos adotar a terapia seqüencial ou cíclica (com “dias livres”); vamos deixar a decisão nas mãos das clientes. 

 

Ah, que terrível vingança do Olimpo: tornando-se presa de Nêmesis, a mulher prometéica enfrenta uma decisão dramática - ao encantar-se com promessas de juventude eterna feitas por falsos oráculos, esquece de que podemos modificar nossa aparência, não nossa natureza!

 

José Cerqueira Dantas.

[email protected]

 

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