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RETRATO 3X4 DE UMA PESSOA 100X100

Parte 2 - Clara Mello: “Eu sou muito visceral, eu sou muito intensa, muito, muito”

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Publicado em: 27 de janeiro de 2019
"Eu sinto que esse é o meu lugar. Eu sou muito apaixonada pelo Piauí."

Eu acho que a poesia é livre.

 JC – O Gullar (poeta maranhense) fala que o poema que não fala do preço do feijão não é legal. Você acha que a poesia tem que inserir, assim, o contexto da realidade ou ela não é obrigatoriamente uma poesia panfletária e que briga com a realidade, denunciante? Nós estamos vivendo tempos difíceis...

Ah, eu acho que não. Eu acho que a poesia é livre. Eu não tenho nenhuma poesia que fale do preço do feijão, embora, eu seja uma pessoa muito politizada na vida particular e pessoal. Eu tenho muito interesse, tenho muitas causas, sou muito ativa nesse sentido. Eu não sinto muito que é o espaço da minha poesia, que a minha poesia seja para isso, mas eu acho que tudo bem, ótimo quem faz, incrível quem usa a arte para isso. E eu acho tudo bem quem não faz também. Porque a gente precisa de todas as formas de arte, de todo jeito. Eu acho que mesmo que eu não traga uma ideologia (na poesia), o fato de eu ser uma pessoa que tem as minhas ideologias já é uma contribuição nesse sentido.

CS – Você é uma artista que luta pelas suas causas...você acha que a literatura feita por mulheres precisa de mais espaço?

Sim, urgente! Sempre que eu posto livro, coisas (nas redes sociais), eu boto “#leiamulheres”. Eu estou sempre falando sobre isso, porque foi quando eu me dei conta. Eu fiz uma lista dos livros que eu mais gostava, que foram marcantes na minha vida. Aí, eu falei: “Meu deus, onde estão as mulheres?”, e me deu aquele baque. Tem muitas escritoras que até hoje precisam botar sigla – como a J. K. Rowling do Harry Potter – teve que pôr, porque se pusesse o nome feminino, venderia menos. Então, é uma coisa que a gente tem que falar. Sai sempre assim, listas de escritores do ano, tem duas mulheres, uma mulher...

CS – E você é uma leitora mesmo de poesia?

Hoje sou! Eu nunca fui tão ativa na poesia. Eu acho que a faculdade me deu isso. Eu passei a ler poesia e hoje em dia eu acho que é o que eu mais consumo. 

JC  – Foi o Pessoa (poeta português) que mais fez tua cabeça?

Foi o Pessoa, mas outros incríveis também. Tem uma poeta que chama Sofia de Mello Breyner, que é uma poeta portuguesa, que é fantástica, que também mudou a minha cabeça. Quando eu li os poemas dela, eu fiquei, tipo: “Eu nem sabia que dava para fazer uma coisa, assim, com palavras”. E tem muitas mulheres ativas fazendo isso agora. Tem a Alice Ruiz, Elisa Lucinda, Adélia Prado. E (tem) uma nova geração de meninas muito novas que estão fazendo uma poesia muito boa. Tem a Alice Sant’Ana, tem Angélica Freitas, tem um grupo de mulheres novas que estão trazendo outra identidade, que estão muito ativas e tem um público muito grande.

As pessoas falam: “Nossa, você é engraçada!”. Eu falo: “Gente, eu sou filha do João Cláudio”.

JC  – No poeta há essa sensibilidade que é aguçada, suas experiências são muito intensas, por exemplo, a paixão, o querer bem, pela mãe, pelo pai, pelo cara amado, é um negócio dilacerante...  

Eu sou muito visceral. Eu sou muito intensa, muito, muito. É tudo muito. Eu acho que se eu não tivesse essa ferramenta para canalizar, que me deixa um pouco mais tranquila, eu ia ser uma pessoa que explode dentro de si. Eu acho que eu não ia dar conta da minha intensidade. Eu sou muito intensa. Eu sei que eu não imprimo isso num primeiro momento. Aí, quem dá um passo além para me conhecer, fala: “Eita, é intensa mesmo!”. Eu acho que se eu não canalizasse isso em arte, ia ser até difícil conviver comigo.

CS – Você é filha de artistas, da Patrícia Mellodi e do João Cláudio Moreno, ele está completando 30 anos de carreira. E uma coisa que eu achei interessante é que ele inseriu nesse show de comemoração desses 30 anos, poesias suas. E, aí, eu te pergunto: você é bem-humorada? O humor é uma coisa importante na sua vida?  

Eu sou bem-humorada. Engraçado que, às vezes, as pessoas falam: “Nossa, você é engraçada!”. Eu falo: “Gente, eu sou filha do João Cláudio” (risos). Alguma coisa está aqui, né?! Eu acho incrível poder fazer humor. Não é uma coisa que eu faço com a minha arte tanto, mas está aqui. E eu acho que eu venho cada vez desenvolvendo isso mais. É uma coisa que eu descobri que eu tinha em mim há pouco tempo, fazendo roteiro. Eu faço muito roteiro de humor. E eu fiquei: “Gente, por que que eu faço tanto roteiro de humor, de onde veio isso?”. Ora, é óbvio, eu passei uma vida inteira vendo meu pai fazer humor.  

JC – A experiência de ser filha de gente famosa é uma experiência que liberta, asfixia ou que são as duas coisas ao mesmo tempo?

Ah, ter pais artistas é muito especial. Ter passado a minha vida inteira no palco é uma experiência muito diferente. Acho que ninguém tem isso, de ficar a vida inteira vendo os pais subindo no palco, aquela outra personalidade – o pai e a mãe e os artistas que estão ali e tal. Por um lado, é difícil porque você já vem com uma certa pressão. E os meus pais são muito bons, são geniais e não é porque eles são meus pais, é porque sou muito fã de verdade. Então, você já parte de um lugar de comparação, de excelência, mas, ao mesmo tempo, facilita muito, porque você vê que é possível (ser artista). Muita gente tem talento, tem vontade, mas tem medo de dá voz...acha que não vai ter espaço. Me ajudou muito ver que mais pais já estavam vivendo de arte, estavam abrindo caminho, criando. E a minha casa sempre foi muito criativa e os meus pais sempre me deram todo apoio do mundo, me incentivaram. Quando viram que eu gostava de escrever: “Ah, vamos fazer um livro, vamos fazer num sei o quê”. Eles deram muito suporte.

Se a gente não tem floresta, a gente não tem nada pelo que lutar.

CS – Você participou de um roteiro importante de uma série chamada As Guardiãs da Floresta. Como foi essa experiência?

É uma série documental sobre lideranças amazônicas femininas e foi um trabalho que mudou a minha vida completamente, eu sou outra pessoa depois de fazer Guardiãs. Porque eu soube de coisas que eu não fazia a menor ideia. Tive contato com causas e com a Amazônia e não tem como estar lá e não sair transformada. E a causa da floresta, da preservação ambiental sempre foi uma coisa que comoveu, mas não de uma forma muito ativa. Quando eu voltei dessa experiência passou a ser a causa da minha vida mesmo, maior que qualquer outra. Porque eu acho que essa é a mãe de todas as lutas; porque se a gente não tem floresta, a gente não tem nada pelo que lutar. E é muito grave o que está acontecendo. A gente está com a floresta muito devastada e a maior parte das pessoas realmente não sabe. Eu não sabia também e eu sei porque eu estava lá. E ver é muito diferente, a gente sabe que tem florestas devastadas, mas quando você olha e vê o que restou de floresta e todo o espaço que está virando pasto pelo agronegócio...enfim, é muito triste, muito grave e é um problema urgente, não é um problema que a gente tem muito tempo para resolver, a gente tem que resolver agora.

CS – Apesar de você morar no Rio de Janeiro há bastante tempo, você falou que sempre vem para Teresina. Como é a tua relação com o Piauí?

Bom, sempre que alguém pergunta isso ou fala: “Mas você é carioca”, eu falo: “Não sou não”. Eu mostro minha tatuagem, porque eu tenho o mapa do Piauí na perna, agora não dá para ver porque está coberta. Não foi um acidente geográfico eu ter nascido aqui. Não foi, uma coisa: “Ah, eu nasci no Piauí, mas eu sempre morei no Rio, eu não tenho nenhuma ligação”. Tem um sentimento muito forte de pertencimento e de identidade. É uma coisa que eu não sei nem explicar por quê, eu simplesmente me sinto daqui. E sempre que eu venho, eu me sinto juntando umas pecinhas que ficaram faltando e encaixando. Eu amo tudo que vem daqui. Eu amo o sotaque, eu amo a comida, eu amo o calor. Eu chego nesse calor, aí, eu falo: “Que delícia esse calor do Piauí”, juro! (risos). Eu gosto de tudo, eu me identifico com tudo. Eu sinto que esse é o meu lugar. Eu sou muito apaixonada pelo Piauí.  

 


Por Catarina Santiago

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