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Laurinha Marques: exemplo de superação de obstáculos

Laurinha Marques é uma personalidade bastante conhecida em Teresina. Ela chama atenção logo de cara por um detalhe: é anã. Mas o nanismo não passa disso mesmo, de um detalhe na vida desta piauiense.

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Publicado em: 11 de novembro de 2008

Laurinha Marques é uma personalidade bastante conhecida em Teresina. Ela chama atenção logo de cara por um detalhe: é anã. Mas o nanismo não passa disso mesmo, de um detalhe na vida desta piauiense nascida em Esperantina, que veio para Teresina em 1984 e saiu em busca de trabalho.

Filha de uma família em que metade dos irmãos é anã e a outra metade tem estatura normal, Laurinha conta que não teve dificuldades para aceitar sua condição. ?Com seis anos eu comecei a perceber que as colegas cresciam e eu não. Mas como nossos pais tratavam a gente de igual para igual, não faziam diferença entre a gente e os irmãos grandes, isso ajudou a evitar que tivéssemos qualquer complexo?, garante. Difícil não foi se auto-aceitar, mas encontrar aceitação nas outras pessoas. Hoje uma profissional autônoma, Laurinha enfrentou muitas dificuldades para encontrar emprego formal quando chegou em Teresina. ?Procurava os empresários e eles diziam que era para eu desistir, que eu não tinha capacidade para o trabalho?, relembra. Ela provou que eles estavam errados.

Atualmente, Laurinha vive de sua própria renda, que conquista através do trabalho como vendedora autônoma, atriz, animadora de festas infantis e, também, palestrante. Ela realiza uma média de três a quatro palestras por mês, para diferentes públicos, tratando sobre temas como a valorização da vida e a superação de obstáculos.

O trabalho lhe permitiu realizar um grande sonho. Laurinha é proprietária de uma casa adaptada para sua condição. Em sua residência todos os móveis são adequados à sua altura. ?Minha casa não é lucro, nem mordomia. Ter uma casa adaptada é garantia de qualidade de vida?, explica.

Laurinha Marques é a entrevistada deste mês no 3x4 de uma pessoa 100 x100

Quando você se tornou consciente de que era anã?

Com seis anos eu comecei a perceber que as colegas cresciam e eu não. Mas como nossos pais tratavam a gente de igual para igual, não faziam diferença entre a gente e os irmãos grandes, isso ajudou a evitar que tivéssemos qualquer complexo Foi um processo tranqüilo, a gente foi se aceitando naturalmente.

E a aceitação das outras pessoas?

Aí já é mais complicado, porque a gente sabe que o ser humano não é 100% humano.

Laurinha em sua casa adaptada

Laurinha em sua casa adaptada

Sempre vai ter alguém que vai criticar, mas isso a gente tira de letra. Quem faz isso não lhe conhece de verdade. Quem lhe conhece, lhe respeita e lhe admira não debocha de você. Então, por que você vai dar crédito para alguém que nem lhe conhece? Agora, eu já saio de casa sabendo que de tudo eu vou ouvir. Todo dia sempre acontece alguma coisa, mas tantas coisas boas acontecem também, que no fim do dia eu já deletei as ruins.

E como isso interfere na sua vida profissional? O que você já fez para trabalhar?

Trabalhava como caixa em um comércio em Esperantina. Aqui em Teresina trabalhei em uma clínica, trabalhei com vendas de bijuterias, de cosméticos e hoje eu vendo inúmeras coisas. Circulo por vários prédios públicos, vendendo produtos variados para os funcionários. 

É difícil encontrar emprego formal?

Hoje, com essa história de inclusão social, eles estão chamando muito. Inclusive têm amigos meus que trabalham em algumas empresas, mas isso começou de uns dois anos para cá. Mas era difícil, quando eu cheguei aqui, que minha mãe foi me levar em alguns empresários, o que eles diziam é que eu não tinha condições de trabalhar, que o melhor que ela fazia era desistir.

E como surgiu esta história de você ministrar palestras?

Depois que minha casa foi adaptada, aconteceu um congresso sobre deficientes, no Centro de Convenções, e a Caixa Econômica, empresa que autorizou a adaptação do meu imóvel, me convidou para este evento, para mostrar um exemplo de ambientes adaptados. Até aí, nada demais. Só que depois, um amigo meu ia participar de outro evento em Sobral, uma discussão sobre ?segurança do trabalho?, com mais de 400 funcionários que trabalhavam com instalações elétricas. Ele me convidou para ajuda-lo, ministrado uma palestra sobre ?valorização da vida?. Como esta pessoa é muito minha amiga, eu não tive como negar, acabei aceitando. Quando cheguei e olhei para aquela platéia, pensei: ?Meu deus, o que é que estou fazendo aqui??. Mas dei conta do recado. Lembrei do que o diretor da minha peça de teatro me disse uma vez: ?Quando você subir no palco, você tem que ser uma pessoa inabalável, inatingível?. Isso aí eu aprendi e consegui levar esta palestra numa boa.

A partir disto os convites começaram a surgir?

Em uma de suas palestras

Em uma de suas palestras

Contei sobre essa experiência em Sobral para outro amigo, que era professor no Iemp, e ele acabou me convidando para fazer uma palestra para os alunos dele. A partir daí a imprensa ficou sabendo, fui para uma entrevista no Rivanildo [ Feitosa, apresentador do Inside TV] e desde então os convites foram aparecendo. Aí fui para o Mulher Empreendedora, para o Sebrae, para o Grupo Med Imagem, dentre outras empresas.

Além de tudo isso, você ainda é atriz de teatro, como apareceu mais esta experiência na sua vida?

Me chamaram para fazer uma propaganda em que os personagens seriam anões. Fui em busca de um grupo para fazer este trabalho junto comigo. A partir deste comercial, nós começamos a fazer animações em festas infantis e, assim, acabaram nos chamando para subir no palco. Hoje, a peça está parada em razão da indisponibilidade de tempo de alguns integrantes do grupo, que estão trabalhando em horários difíceis de conciliar. Mas ainda participamos de aniversários infantis, a criança vai de branca de neve e nós representamos os sete anões.

Você é bem conhecida em Teresina, mas a gente não vê muito outros anões por aí. Onde estão essas pessoas?

Eles estão em casa. A família super protege, com medo do que eles vão sofrer lá fora. Agora eu acho que tem preconceito, tem sim, mas ou você passa por isso ou você não vive. Você tem que fazer a coisa andar, você tem que se fazer ser respeitado.Quando nós começamos a fazer comerciais, éramos nove. Isso chamou a atenção, hoje já conheço uns 15 anões em Teresina.

Raio ? X

Música: Lady Laura, do Roberto Carlos
Livro: O livro que mais me chocou foi Paradoxo Global, de John Naisbitt, li este livro em 1996 e até hoje ele é bastante atual.
Um sonho: A Associação dos Anões, que eu quero estruturar, para nos reunir e lutar por nossos direitos.
Uma conquista: minha casa adaptada


Clarissa Poty
11.11.2008

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