(86) 3131-1234
**

RETRATO 3X4 DE UMA PESSOA 100X100

João Cláudio Moreno: uma personalidade multi

Tamanho da letra:
A
A
Publicado em: 05 de julho de 2005

Há 38 anos nasceu, em Piripiri, João Cláudio Moreno, o humorista maior do Piauí, e cidadão do mundo, sempre criando projetos interessantes e engajado em alguma causa importante, como a que defende atualmente na câmara de vereadores de Teresina contra a ?anarquia? dos carros de som que tiram a paz da vida urbana. A proposta do vereador é criar o aterro do som, uma espécie de aterro sanitário para os carros de som, onde os ?curtidores? de música nas alturas possam se ?envenenar? sem incomodar ninguém.

Do ponto de vista de criação literária, João Cláudio está elaborando a Enciclopédia de Piripiri, livro que deve ser editado em dezembro deste ano.  A obra é uma espécie de manual bem humorado e com muitas passagens culturais, históricas e da vida social de sua cidade natal, que ele, aliás, faz questão de lembrar como sua referência. Já no lado artístico, ele dá prosseguimento às apresentações do Show Imitações, que foi transformado em DVD, o primeiro da sua carreira. Este projeto contou com o apoio do Medplan para se concretizar e o artista destaca que é algo importante para divulgar seu trabalho como humorista, e que teve uma grande aceitação. Quanto a um novo espetáculo, os fãs do artista não devem demorar a assistir algo diferente com João Cláudio e seus múltiplos personagens.

Humor, cultura, política: para falar destes e de outros temas, o site Medplan recebeu João Cláudio no espaço cultural Viva Arte para um bate-papo descontraído com amigos do artista. Além da editora do site Medplan, Adriana Cláutenes Lemos, participaram gentilmente da entrevista o professor Cinéas Santos, os jornalistas Zózimo Tavares e Raimundo Filho e o médico José Cerqueira Dantas.

Adriana Cláutenes - Além do humorista, do político, tem também o João Cláudio Escritor. Você está escrevendo a enciclopédia de Piripiri.  Que projeto é esse, sobre o que ele versa?
João Cláudio- Quando eu era criança, me interessei pela placas das ruas de Piripiri. Cassiano Coelho de Resende, Nelson Coelho de Resende, professor Nelson Coelho de Carvalho e ninguém na cidade sabia quem eram. Dr. Resende...Rua doutor Resende. Quem é doutor Resende? Existem tantos. O Dr. Resende em questão era o Simplício Coelho de Resende, irmão do coronel Antônio Coelho de Resende, que veio de Portugal, se instalou na fazenda Curral de Pedras, que pertencia ao município de Piracuruca. Essa fazenda veio a ser depois do desembargador Magalhães da Costa, que se formou em direito e foi senador pelo Estado do Amazonas e criou a universidade daquele Estado, que também vem a ser o nome da rua Coelho de Resende de Teresina. Isso era uma curiosidade de uma criança de cinco anos. Então quando eu completei 18 anos eu já tinha subsídios para fundar um museu de Piripiri, que tem um acervo iconográfico de 3.500 fotografias. São registros da vida social, religiosa, política. Então eu tinha vontade de deixar alguma coisa no sentido de contribuição para a história. Foi aí que eu vi o livro do João Castro, lançado pela Companhia das Letras, em 2002:  Enciclopédia de Ipanema - Ela é Carioca. Ele fez um corte cronológico dos anos 60 até os dias de hoje e focalizou a época em que Ipanema era o centro cultural do Brasil (na visão deles..) Para eles até hoje o mundo é ali ...risos..já meu mundo é Piripiri ! Então, tomei por base a enciclopédia, só que o corte cronológico era pequeno e eu fui ampliando. Virou o que o Cinéas Santos chama o livro de Areia do Borges. Não tem fim. Comecei com a previsão para 600 verbetes passei para 3.200 e já estamos em 4.500. Há verbetes curtos e outros pegam uma página inteira. O texto é de humor, oferece informações, humor, história e poesia. Fizemos um projeto para o banco do Nordeste publicar, e temos que entregar para prova até dezembro. É muito interessante a história de Piripiri, é ligada a um padre, que fundou uma vila, que se casou, teve filhos.  Foi ele quem fez a primeira reforma agrária, porque dividiu as terras para todos os filhos, os legítimos e ilegítimos..risos.


Adriana Cláutenes- Por falar em padre, a religiosidade é muito presente em sua vida...
João Cláudio- Risos...eu ainda vou ser padre. Agora mesmo eu encontrei com uma velhinha, no bairro Mafuá, onde existe o centro cultural São Francisco. É um negócio maravilhoso, porque é uma bodega de vender botões do Cícero, e ele foi botando quadros na parede, foi misturando e as pessoas são chamadas e vão para lá...vai o Douglas (Douglas Machado- cineasta), vai o Áureo Júnior (artista Gráfico). E o mais interessante é que o Cícero sempre arranja um pedaço de parede para colocar tudo que aparece. É uma exposição em constante mudança. Recentemente, ele fez uma exposição do Gabriel Arcanjo e eu levei uns quadros dele que eu tinha em casa. Os quadros foram feitos em papel de embrulho e tinta nanquim. Nessa ocasião, ele fez um café da manhã, chegou uma velhinha e eu estava vestido de padre. No carnaval, não tem aquelas pessoas que se vestem de mulher?  Por trás dessa atitude deve existir uma vontade muito grande de ser mulher...e eu com uma vontade muito grande de ser padre... Ela olhou par mim e disse: você agora  é padre? Aí eu disse: não; mas eu vou ser, quando minha filha crescer. É bom mesmo, que vai ser uma coisa que não rouba...risos...aí eu disse: olha a gente não pode  julgar...mas padre rouba...até velha rouba, também...risos.


Amigos se reúnem com João Cláudio para
um bate-papo agradável

Adriana Cláutenes - O seu último show, o Imitações, foi transformado em DVD, que inclusive teve o patrocínio do Medplan. Qual a importância desse projeto sua carreia?
João Cláudio - Agora na era da tecnologia é o primeiro DVD, o alcance aumenta muito, com o CD, com o DVD. É impressionante como o humor tem uma empatia direta com o público. O DVD se auto-distribui. Acho que o Imitações é um espetáculo em que eu apareço bastante maduro.
 

Adriana Cláutenes- E como é esse processo das imitações para você? É verdade que você só imita quem você gosta?
João Cláudio- Não é um processo técnico, é um processo emocional. Não é a pessoa que eu gosto, a pessoa tem de me impressionar. Tem de ter uma personalidade que me impressione, de maneira que absorvo e vou me apaixonado por aquela criatura.


Raimundo Filho- João, você já é um humorista consagrado aqui no Piauí e agora está embrenhando-se pela política, como vereador. Queria saber no que o humorista ajuda o político e no que político ajuda o humorista?
João Cláudio ? Bom, o humorista consagrado no Piauí: primeiro, eu tenho a concepção que isso não significa nada. Quando Câmara Cascudo começou a escrever seus artigos em Natal, foi muito criticado. Aí um dia disseram: "mas professor você não vai responder ?". Aí ele disse: "Natal não consagra nem desconsagra ninguém". Então, Teresina não consagra ninguém. É muito pequeno. Eu chegar, depois de 16 anos, a ser um artista consagrado em Teresina e Timon, isso não significa nada. É muito pouco, e foi o que consegui !..risos...Ser um humorista consagrado, querido pelo povo, que tem um bom conceito ajuda de fato. A minha campanha foi baseada nisso, eu não fiz um comício, não gastei dinheiro. Esse ano, na eleição de vereador, o esquema do PSDB funcionou como um trator. Junto, os dez vereadores do partido tiveram 70 mil votos. Não sobrou voto para ninguém. Antigamente existiam dois ou três que se elegiam pela palavra, pelo trabalho, pela notoriedade, sem precisar ter esquemas clientelistas, ter dinheiro. Hoje não, é milagre eleger-se um. O humorista ajuda o político, mas o político não ajuda o humorista em nada. Primeiro, exigem do artista que tenha um jogo de cintura, uma posição definida entre o artista e o político, que são duas posturas completamente diferentes. Ser político é a expressão de um gesto que eu quis dar, que acho que nós temos de olhar com atenção e não com essa desilusão. Estamos vivendo um período crítico, com o mensalão. Imaginei crise no PT de toda ordem, mas não pensei ser esta corrupção generalizada, que é mesmo, que está sendo comprovado. Eu tinha o temor de o governo do PT não dar certo, e desiludir uma geração inteira. As pessoas vão dizer "tudo é igual", e ninguém vai mais votar por convicção. Então, quis dar minha contribuição, mas não quero fazer carreira política, não tenho estrutura psicológica. Já vi mesmo, depois que entrei, que não tenho mesmo! Mas pessoas como eu devem entrar para dar um exemplo de ética, moralidade, de participação, de quebrar alguns valores.


Zózimo Tavares- Onde você acha que está a raiz dessa questão? Porque houve um período de ditadura que não havia voto, hoje o que não falta é voto. De dois em dois anos tem eleição. E o Pelé dizia, nos anos 70, que o brasileiro não sabia votar, e foi apedrejado por isso. nde é que está o problema?

João Cláudio- O brasileiro é apaixonado por política, por votar. Eu tiro por mim, nunca deixei de votar ou votei em branco, nulo...o negócio fica ruim. Desiludo-me, aí vem uma campanha, vou lá e peço voto pro caras...e você também...a gente toma partido. É um negócio da cultura brasileira. Agora, não acredito num governo que queria propor mudanças e não utiliza o instrumento da televisão. Pensei que o PT ia usar a televisão para educar, informar, desalienar e para ensinar a votar, criar consciência política.. A TV é um instrumento maravilho que abrange muito. Aí, você me diz: "mas como é que o governo vai interferir na TV estatal?". Ora, da mesma forma que interfere em outras. Ele paga para falar bem do governo e por que não pode ter uma verba destinada a promover programas educativos, que atraiam e criem consciência ? Então acho que houve avanços, mas como o Carlos Drumond dizia: "Amar se a aprende amando?...votar se aprende votando. E tenho impressão que quando o Brasil votou no Lula disse não ao sistema político proposto pelo Fernando Henrique. E tenho impressão que a elite deixou o Lula se eleger, concederam. Se o Lula fosse inteligente, como dizem que é, se fosse um homem diferente...porque nem tudo está perdido...ele encontraria meios de aproveitar esses espaços. Não sei o que vai ficar da história do PT, eu não acho que o governo do PT seja igual ao do PFL.
 
Cinéas Santos- João, parece que você não consegue equacionar bem essa coisa do espaço da aldeia e da globalização. Se eu bem entendo , embora sua referência seja Piripiri. Você gostaria muito de ser um humorista nacional de estar fazendo (não em nível de qualidade porque você faz muito melhor) o que está fazendo o Tom Cavalcante. Você já conseguiu conciliar isso de uma forma mais serena? Já pensou em ser mais a sua aldeia e se contentar com isso? Ou vai continua insistindo nessa idéia de que é preciso ultrapassar essas barreiras?
João Cláudio- Não, não consigo. Isso é um impasse para mim. De todas as oportunidades que tive de sair eu voltei para cá, veja como é um impasse, que vai além de minha compreensão, como o Jorge Amado também. Toda a obra dele é sobre a Bahia, se repete mas é o que ele sabia escrever. Quando o artista começa a se repetir é hora de parar, dar uma pausa. Agora o que muitas vezes se pressupõe que é uma repetição não é. É uma mudança. Eu tinha essa ambição de ser aquele artista que pudesse representa o Piauí e falasse do Estado e emocionasse, e chamasse a atenção, não dos piauienses mas das pessoas de fora. E só quem pode conseguir isso é o artista. Nós produzimos muitas coisas, mas fica aqui...no Maranhão tem a Alcione, como tem o Luís Gonzaga em Pernambuco e os cearenses tiveram tantos, os mineiros também. E isso falta para nós. A obra do H.Dobal, por exemplo, que é excelente, devia ser mais conhecida, a obra do O.G Rego devia ser mais conhecida. Não estou nem me incluindo, porque não cheguei a este patamar. Quando eu fui ao aniversário do Frank Aguiar em Itainópolis e vi três tevês filmando: Globo, Bandeirantes e tudo mais... Era aquilo que eu queria, mas não era bem aquilo ainda, porque não tinha o conteúdo suficiente para se eternizar, sabia que aquilo passava. Essas oportunidades para afirmar o Piauí lá fora, só um artista pode fazer acima dos políticos. Acho que essa fuga do sucesso está na nossa antropologia.

Cerqueira Dantas- Tenho uma questão meio intimista, uma dúvida que tenho sobre sua pessoa. Você é uma personalidade encantadora, resultado dessa mente iluminada somada à inquietação. A tua inquietação é uma coisa que te faz crescer, ou te consome? Você a libera?
João Cláudio- Eu gostaria de ser mais tranqüilo, mais calado, mais quieto, menos egocêntrico, mais maduro. Não vejo muita vantagem na inquietação. Tenho a impressão de que se eu fosse mais tranqüilo, respirasse mais fundo, me comprometesse com um propósito só, faria melhor as coisas. Digamos que minha inquietação é mais pela busca da quietude. Quero ser mais tranqüilo. Busco isso. Durante determinado período eu consigo isso, depois perco de novo. Não sei que fatores externos fazem isso. Sei que o palco me dá uma tranqüilidade muito grande. Quando eu era criança celebrava missa e pensei que tinha vocação para padre, fiz a Capela, comprei a batina. Depois achei que não era vocação, a paixão era pelo elemento teatral da coisa, eu queria era exacerbar o ego, chamar atenção e aquilo era o cenário perfeito. Até chegar a essa definição foi uma angustia muito grande que tive.
 
 
Adriana Cláutenes - Vamos para algumas perguntas rápidas.
 
Para gargalhar?
João Cláudio- Uma boa leitura.

Uma qualidade?
João Cláudio- Sinceridade.

Um Defeito?
João Cláudio- Se apaixonar. È muito complicado.


Um aprendizado?

João Cláudio- Fazer cangalha.

Uma bronca?
João Cláudio- Com os carros de som.

O futuro?
João Cláudio- A Deus pertence.
 
 

Comentários

Nenhum comentário cadastrado. Seja o primeiro!





Deixe seu comentário

Nome*
Email*
Verificação*
Seu comentário*