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Dr. Manoel Baldoíno Filho: fascínio pelo estudo do cérebro

Nessa entrevista, o médico e pesquisador conta um pouco da sua trajetória, fala sobre os últimos avanços na área de neurociências e explica porque o Brasil ainda está longe de se tornar um centro de referência em pesquisas avançadas.

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Publicado em: 30 de janeiro de 2008

O neurocirurgião Manoel Baldoíno Leal Filho é um grande pesquisador na área de Ciências Médicas. Formado em medicina pela Universidade Federal do Piauí, o médico titular da Sociedade Brasileira de Neurologia possui ainda mestrado e doutorado pela Unicamp, de São Paulo. Nas duas pós-graduações, Baldoíno Filho utilizou sua experiência com traumatizados de coluna em um hospital público de Teresina para aprofundar estudos acerca do traumatismo raquimedular.

Agora, o doutor em Ciências Médicas quer alçar vôos ainda maiores e planeja um pós- doutorado na área de neuroregeneração. ?Até antigamente se acreditava que o tecido nervoso não tinha regeneração alguma, hoje se sabe que ele tem sim um poder de regeneração através de novos tratamentos que estão sendo descobertos, é uma área de estudo muito interessante?, explica o médico, que ainda está definindo onde realizará sua pesquisa, se nos Estados Unidos ou na Alemanha.

Nessa entrevista, o médico e pesquisador conta um pouco da sua trajetória, fala sobre os últimos avanços na área de neurociências e explica porque o Brasil ainda está longe de se tornar um centro de referência em pesquisas avançadas.

Vamos iniciar falando um pouco sobre a sua trajetória. Como se deu essa escolha pela neurocirurgia?

Já nos primeiros anos do curso de medicina o sistema orgânico que mais me chamava atenção era o sistema nervoso. Ainda na parte inicial do curso, ganhei bolsa do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) porque desenvolvi alguns projetos utilizando plantas medicinais e realizando experimentos com aprendizado interferente, que está relacionado ao funcionamento da memória. Devido a essas pesquisas, apresentei trabalhos em congressos e fui convidado a conhecer o Instituto de Memória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquela época eu fiquei mais fascinado ainda por neurociência. Minha vontade enquanto estudante era a de trabalhar com pesquisa, no entanto, em razão das dificuldades no nosso meio em fazer pesquisa avançada, acabei tomando a decisão de seguir carreira médica e fiz residência em neurocirurgia.

Na sua opinião, qual país pode ser considerado o maior centro para pesquisas na área de neurociências?

Acho que fica dividido. Nos Estados Unidos nós temos grandes centros e alta tecnologia. Já o Governo Alemão investe muito em tecnologia, mas também em educação. Acho o povo alemão muito mais organizado quando comparado ao povo americano, já a organização do povo americano é bem maior do que a nossa.

O que falta para que o Brasil atinja o mesmo nível, em termos de pesquisas, desses outros países?

No exterior as pesquisas rendem produtos, que são vendidos e financiam novas pesquisas. Aqui nós ainda não temos isso, ainda fazemos muita pesquisa a fundo perdido, muita pesquisa que não dá em nada. O que o governo daqui faz: dá bolsa para os professores universitários do Brasil para eles irem fazer doutorado ou pós-doutorado no exterior, com dinheiro brasileiro. Só que esse pessoal não volta para o Brasil, o governo brasileiro investe, mas os pesquisadores acabam ficando por lá. Isso ocorre porque quando você faz uma pesquisa de ponta o produto daquela pesquisa acaba sendo usado ou vendido e a universidade tem interesse em manter a mesma linha de pesquisa. O pesquisador acaba ficando por lá, ganhando cidadania, e o governo brasileiro investiu para não receber qualquer retorno.

O que o senhor acha que o País precisaria fazer para reverter essa situação?

Investir maciçamente em educação básica, para daqui a 20 anos começar a perceber os resultados disso. Não é essa educação de falácia, de político, é educação mesmo, de colocar a criança e o adolescente dentro da escola de manhã para sair só à noite. O brasileiro ainda joga sujeira na rua, o brasileiro não acredita nas conseqüências da dengue, nas conseqüências das doenças endêmicas, é um povo mal educado, indisciplinado. E disciplina, critério e rotina só se adquire com muita educação, que precisa ser de base. Para trazer cérebros de volta para o Brasil é preciso reformular tudo. O pilar de sustentação de uma sociedade é a educação.

Na sua opinião, qual foi a última grande descoberta feita na área de neurologia?

Eu acho que, em termos de investigação, nós tivemos um grande avanço no campo de imagem. No passado, os franceses, que eram os grandes mestres em neurologia, tinham a idéia da doença com base no exame clínico. Lógico, o exame clínico sempre será a base de sustentação da medicina, mas o grande avanço que houve nessa área de diagnóstico foi a imagem. Hoje, nós conseguimos ver o cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos através de métodos de imagem: a tomografia computadorizada, a ressonância magnética, nós já temos a ressonância funcional, que permite ver como funcionam determinadas áreas do cérebro. Isso tudo é fantástico. O método de imagem ajudou muito no desenvolvimento da ciência neurológica.

E quais seriam as linhas de pesquisa mais promissoras nessa área?

No futuro, acredito que teremos dois campos importantes: o campo da criação, recuperação de tecidos, com o uso de células-troncos ou substâncias neurotróficas, que já estão sendo descobertas. Outro campo será da robótica, com a utilização de microchips para repor partes que o ser humano venha a perder, michochips que atuem como substitutivos para a visão, por exemplo.

Ultimamente têm sido noticiados muitos casos de AVC (Acidente Vascular Cerebral). O senhor acredita que o estresse da vida moderna aumentou a quantidade de casos?

O AVC foi e sempre será do mesmo jeito, o diferencial é que, agora, você consegue investigar melhor. Técnicas de imagem permitem detalhes até mais precocemente. Com relação ao estresse, os principais fatores de risco relacionados ao AVC são pressão alta, tabagismo, diabetes, níveis de gordura... Lógico, o estresse influencia, mas no sentido de alterar esses fatores de risco: quem se estressa tem mais risco de ter pressão alta, por exemplo.

Têm algumas situações, essas em menor percentual, em que o AVC é resultante de problemas congênitos. Mas eu acredito que, com o estudo do genoma humano, nós vamos conseguir desvendar essas doenças com origens genéticas que podem causar desde câncer até alterações em artérias cerebrais que possam levar ao AVC. Com o estudo do DNA e dos genes nós vamos conseguir detectar quem vai ter chance de desenvolver tais doenças e, posteriormente, será possível desenvolver genes substitutos. Acho que, no futuro, nós vamos ter o mapa do nosso código genético e cada um de nós já vai nascer sabendo a que doenças estará sujeito e, através de vaginas gênicas que levarão os genes substitutos saudáveis para nosso organismo, poderemos evitar essas doenças e sabendo que elas poderiam acontecer, evitar os fatores de risco das mesmas.

Qual a sua opinião acerca da liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias?

O problema tem relação com os governos e com as religiões. Nos Estados Unidos existe uma limitação governamental para pesquisas com células-tronco embrionárias. Porém, há muitos pesquisadores que desenvolvem pesquisas com células-tronco adultas, que podem ser encontradas no interior dos ossos humanos. Existem especialistas que afirmam que as células-tronco adultas não funcionam tão bem quanto as células-tronco embrionárias, eu acredito que o melhor caminho está na descoberta de técnicas que permitam que as células-tronco adultas funcionem tão bem quanto as embrionárias.

Agora, saindo um pouco da área médica, quais são seus outros interesses além da neurologia?

Eu gosto muito de informática, acho que um grande avanço do conhecimento humano é área de informática. Nós que trabalhamos nessa área de tecnologia mais avançada acabamos lidado um pouco com isso. Já acompanhei cirurgias monitorizadas com uma margem de segurança muito grande graças às técnicas de informática.


Rápidas

Nome: Manoel Baldoíno Leal Filho
Idade: 40 anos
Livro: Gosto de poesia, de ler assuntos recentes. Eu não tenho um autor preferido, mas as histórias de vida de Nelson Mandela e de Ghandi me fascinam. 
Música: MPB, Djavan, Caetano Veloso, Tom Jobim.
Um lugar: o litoral brasileiro é fantástico.

 

Clarissa Poty
30.01.2008

Comentários

Mayara Pinheiro fernandes

06 de abril de 2017

Cmo eu entro em contato com ele ?

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