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Dr. Dib Tajra: uma vida dedicada à Medicina

Hoje com 74 nos, o cirurgião participou de grandes marcos da trajetória da saúde no Estado, como a criação dos Hospitais Casamáter e Hospital Santa Maria, este último esteve sob o seu comando até recentemente.

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Publicado em: 30 de setembro de 2013
Antônio Dib Tajra, 74 anos, personifica grande parte da história da Medicina do Piauí. Em 50 anos de carreira, o cirurgião participou de grandes marcos da trajetória da saúde no Estado, como a criação dos Hospitais Casamáter e Hospital Santa Maria, este último esteve sob o seu comando até recentemente. A unidade hospitalar é responsável por parte considerável do respaldo que Teresina ganhou como pólo de saúde,  já que foi responsável por importantes marcos na evolução  dos serviços médicos oferecidos aqui, implantando , por exemplo, a primeira UTI da cidade e realizando cirurgias pioneiras, como as de transplantes renal e cardíaco, além de ser um centro formador de novos cirurgiões, através da residência médica.

Nesta entrevista, Antônio Dib Tajra fala um pouco de sua história de vida, a carreira médica reconhecida e sobre seus planos para o futuro, que incluem a continuação das atividades, manuseando o bisturi, e a criação de novos empreendimentos.
 
 
1. Quando e como o sr. descobriu a vocação para a medicina?

Minha vocação pra ser médico era sentida desde a época em que eu fazia o ginásio em Teresina, no Colégio Leão XIII. Nós já tínhamos alguns médicos na nossa família, como a Dra. Rosa Amélia Tajra, primeira médica mulher do Piauí, dr. João França Filho, esposo dela, e minha tia Maria Teresa Tajra Cortelazzi. Eu via neles um espelho. Eram pessoas que trabalhavam fazendo o bem para a população. Ela era pediatra e ele cirurgião geral e também tinha um primo, João Elias Tajra, que era médico.

2. Onde se formou e como foi sua trajetória na Faculdade de Medicina em que estudou?

Já com a ideia de cursar Medicina, fui a Fortaleza fazer o que é hoje o ensino médio e pré-vestibular. Passei na Faculdade de Medicina do Ceará na primeira prova, e fiz os seis anos do curso de graduação. Lá, fui ensinado por grandes nomes da Medicina, como os doutores Luís Carlos Fontenele e José Murilo Martins. Eles nos orientavam a fazer todo o histórico clínico e os exames de sangue, radiológicos ou que fosse necessário, e ficar acompanhando o paciente até dar o diagnóstico final, e ainda fazer um relatório para apresentar os resultados. Às vezes uma prova durava uma semana e tudo era supervisionado por eles. Na faculdade, também fui líder estudantil, chegando a presidir o Diretório Acadêmico. Na formatura, foi o orador da turma.

 3. Como escolheu a especialidade de cirurgia?

Antes mesmo de me formar, já tinha decidido pela clínica cirúrgica. Durante a faculdade, já me dedicava mais a fundo aos estudos desta área. Além disso, na Universidade do Ceará havia um excelente gabinete de anatomia, no qual dispúnhamos de muitos cadáveres para estudar. Meu grupo da turma participava muito de autópsias e dissecações, o que nos possibilitou vivenciar a cirurgia desde o início do curso, já que é dessas técnicas de onde vêm a maioria do conhecimento no campo da cirurgia. 
 
4. Quantos médicos existem na sua família?

Bom, na família Tajra, além dos médicos antigos, já falecidos, hoje temos 13 médicos em atividade.
 
5. Que recordações o sr. guarda de quando retornou a Teresina, e de como era a prática da medicina na época em que chegou aqui?

Voltei em 1962 para Teresina. Fui o médico de número 173 do Piauí.  Naquela época, havia poucos médicos, consequentemente as oportunidades de trabalho eram muito grandes. Discuti com os doutores França e Cortelazzi, que trabalhavam no Hospital Getúlio Vargas, sobre o que seria melhor, se eu ficaria aqui ou faria residência médica fora. Como o cenário era favorável pra ficar, então decidimos que eu ficaria aqui e os acompanharia no Hospital na parte de cirurgias. Existe um aforismo que gosto muito, de Hipócrates, que diz: ?Junte-se aos bons e serás um deles?. Então foi isso que eu fiz. Procurei me juntar a eles dois e outros médicos cirurgiões, como o Dr. Dirceu Mendes Arcoverde, Dr. Adonias Ribeiro de Carvalho, o que muito contribuiu na minha formação cirúrgica; acompanhando, auxiliando e me permitindo operar junto com eles. Também tive um apoio muito grande do Dr. Lucídio Portela, médico radiologista. Com esse pessoal, eu fui desenvolvendo uma grande capacidade de fazer cirurgias e fiquei trabalhando no serviço de urgência do HGV durante 20 anos.

6. Como foi a experiência de participar da criação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí?

Em 1969, participamos auxiliando o Dr. Zenon Rocha, o Dr. Carlaile Guerra de Macedo e o Dr. Natan Portela, que foram os três principais nomes que fundaram a Faculdade de Medicina do Piauí. Ela era primeiramente uma faculdade estadual, pra depois se incorporar ao que é hoje a Universidade Federal do Piauí. Lá, cheguei a ministrar aulas como professor adjunto de cirurgia geral e cirurgia pulmonar.

7. Quando e como surgiu a ideia de criar o Hospital Santa Maria?

Era um grupo de médicos amigos e unidos. Dr. Antônio Moreira Mendes, pneumologista; Dr. Lucídio Portela, radiologista, o cirurgião geral Dr. David Cortelazzi, Dr. Reginaldo Rêgo e eu. Cada um já tinha seus consultórios, próximos uns dos outros. Eu já fazia cirurgia torácica e havia feito cursos de cirurgia pulmonar em São Paulo e no Rio de Janeiro, quando fui convidado por Dr. Lucídio para abrirmos uma clínica de pneumologia junto com nossos três amigos. Daí decidimos criar a Clínica de Doenças Torácicas de Teresina, que hoje é o Hospital Santa Maria, e que seria voltado principalmente para doenças pulmonares e cirurgias gerais. Não havia um serviço desse tipo na época.

8. Quais inovações o sr. e Hospital Santa Maria trouxeram para a medicina do Piauí?

O Santa Maria foi o primeiro hospital projetado e planejado do Piauí por uma equipe de administradores hospitalares, coordenada pelo Dr. Geraldo Magalhães, que havia sido meu professor em Fortaleza. Com a nossa colaboração, ele também projetou o Hospital Nossa Sra. De Fátima, em Parnaíba, primeiro hospital fora de Teresina a ser criado com o mesmo conceito. Começamos com 27 leitos e implantamos a primeira UTI do Estado, com 4 leitos, além dos 60 leitos para clínica médica e cirurgia. Depois evoluímos e chegamos a ter 250 leitos e 27 leitos para UTI, sete deles de UTI pediátrica, também pioneiro no Estado. Depois, a UTI pediátrica teve de ser desativada. Outro mérito foi termos sido o primeiro hospital do Piauí a realizar um transplante de rim com equipe própria, e também fomos pioneiros na realização de transplante cardíaco.

Dr. Dib Tajra (centro) esteve no comando da equipe que realizou o 1º transplante cardíaco no Piauí. O cirurgião Cláudio Mendes (à dir) também participou do procedimento
Dr. Dib Tajra (centro) esteve no comando da equipe que realizou o 1º
transplante cardíaco no Piauí. O cirurgião Cláudio Mendes (à dir) também
participou do procedimento

 
8. Quantos médicos foram formados pelas residências do Hospital Sta. Maria e em quais especialidades?

Em 1993, sentimos a necessidade de criar uma residência médica em cirurgia geral. Já existia a Faculdade de Medicina, os médicos se formavam aqui e saíam para se especializar fora. Com a colaboração do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, criamos primeiramente o treinamento em cirurgia, pra depois criarmos a residência médica em cirurgia. Depois de consolidada a residência, nós fomos ao MEC e a residência foi reconhecida pela instituição. De lá pra cá, já formamos cerca de 60 cirurgiões gerais, destes muitos já são especialistas, e boa parte deles trabalha Teresina.
 
9. Quais as melhores lembranças que guarda da sua historia profissional?

No HGV, fomos os primeiros cirurgiões do Piauí a recuperar uma ferida cardíaca: um paciente com facadas no coração. Nesse período conseguimos também recuperar 12 pacientes com feridas cardíacas, salvando-os. Fomos os primeiros a conseguir reanimar um paciente com parada cardíaca transoperatória. Ele sofreu a parada durante a cirurgia. Fizemos massagem externa, depois interna, diretamente no coração, e conseguimos recuperá-lo, sem sequelas. Com a criação do Hospital Santa Maria, construímos uma história muito grande de desenvolvimento, aprimoramento e especialização em cirurgias. E temos consciência do que fizemos. O primeiro marcapasso cardíaco no Piauí foi implantado por mim, juntamente com os doutores Benício Parente e WMoacir Godoy, aqui no Hospital Santa Maria.

 Tivemos também um trabalho muito grande, eu e o Dr. Brandão, em fazer caravanas pelo interior do Estado. Fomo a Picos, Corrente, Floriano, Campo Maior, Parnaíba, Piripiri, levando a mensagem da cirurgia e suas possibilidades de desenvolvimento. Trouxemos cirurgiões de várias partes do Brasil pra operar aqui e nos ensinar e aprimorar nossa técnica cirúrgica.

10. Quantas cirurgias realizou até hoje, e quantos trabalhos científicos publicou?

Realizei cerca 19.000 cirurgias, entre médias e grandes. Fiz 193 participações em congressos, tenho 4 livros editados e 38 trabalhos publicados em livros e revistas científicas.

11. Como é o Dr. Dib preceptor?

Como você imagina que eu seja? Extremamente rigoroso. Isso porque amanhã ou depois pode ser eu na mesa de cirurgias. Então, eles devem fazer como eu faço. Eu levo pra cirurgia um paciente que é pai, mãe, ou filho de alguém. E como é que eu quero que essas pessoas sejam tratadas? Da mesma forma que eu quero que um ente querido meu seja tratado, da melhor maneira possível, você não pode errar. Cirurgia não permite erros ou correções. Então, até eles começarem a operar, no 2º ano, os residentes passam por toda uma preparação, até chegar a operar sob nossa supervisão. Nós temos convênio com o HUT, onde eles vão também acompanhar os cirurgiões. Aqui, até educação doméstica eu dou pra eles. Têm que saber tratar muito bem as pessoas.
 
12. O que sr. acha da medicina de Teresina?

Do ponto de vista de competência profissional, a medicina de Teresina é muito boa. Mas o que falta é investimento da parte governamental, pois a medicina é uma atividade cara, com custos elevadíssimos. E tem o agravante de que, ao contrário da tecnologia como um todo, que com o passar do tempo vai barateando, na Medicina é o contrário. A cada dia que passa fica mais cara. Por exemplo, marcapasso cardíaco, à medida que foi diminuindo de tamanho, foi aumentando de preço.

13. Quais são seus projetos para o futuro?

Agora o meu objetivo é juntar a minha capacidade de liderança e aglutinação com a capacidade do Drs. Aloísio Luz e Cláudio Mendes, e transformar isso em ações e resoluções para a comunidade teresinense e piauiense. Espero que a gente consiga fazer esse trabalho. Eu tentei isso sozinho e é muito complicado. Queremos fazer algo grandioso, já temos o projeto e acreditamos que seja possível. Juntar em um só lugar hospital, centro de diagnósticos e tratamentos, e espaços de convivência. E outro sonho é fazer um Hospital de Câncer.

A.N.
30/09/2013

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