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Assis Carvalho: política, gestão pública e literatura

O atual Secretário de Saúde do Estado do Piauí possui uma trajetória peculiar. De jovem estudante oeirense recém chegado à capital piauiense, o tempo o transformou em uma das figuras mais conhecidas dentro do governo estadual.

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Publicado em: 04 de janeiro de 2008

A trajetória de Assis Carvalho é recheada de episódios inesperados, de capítulos surpreendentes, mas que sempre mantiveram uma rota rumo à  ascensão. De jovem estudante oeirense recém chegado à capital piauiense, o tempo o transformou em uma das figuras mais conhecidas dentro do atual governo estadual. 
 
Foram muitos os percursos antes que ele alcançasse o posto, que hoje ocupa, de secretário de Saúde do Piauí. Estudante de letras, auxiliar na instalação de vidros em prédios, gerente de loja comercial, bancário. Essas foram só algumas das atividades desempenhadas por um dos mais votados para deputado estadual na última eleição. Durante todo esse caminho, a política sempre marcou presença em sua vida. 
 
Nessa entrevista ao Portal Medplan, o secretário de Saúde do Estado do Piauí, conta um pouco dessa história. E fala sobre política, saúde e até literatura. Confira! 
 
Portal Medplan - Quando surgiu seu interesse pela política?
 

Parece que veio no sangue. Eu ainda era menino lá em Oeiras e morava na mesma rua que o [governador] Wellington Dias. Na época, nós já disputávamos aquela estória de prefeito da rua. O Wellington se candidatava e eu o apoiava. Nós participávamos também do Frei Jordão, um grupo que até hoje existe em Oeiras. Naquele período nós aprendemos muito. Era mesmo a questão da militância política religiosa, das comissões pastorais da terra. A Igreja me ensinou muito a importância da política.
 
Depois, já em Teresina, eu e outros jovens estudantes nascidos em Oeiras formamos um clube para proteção do meio ambiente. Presidi esse clube durante quatro anos. Nós realizávamos palestras para discutir a questão do meio ambiente em uma época em que isso ainda não era uma agenda positiva. A idéia surgiu quando percebemos que o riacho Mocho, que fica lá em Oeiras, estava morrendo. Quando criança morei na casa da minha avó, que ficava do lado desse riacho. Entramos em contato com outros estudantes que nasceram em Oeiras e formamos o clube.
 
Quando passei no concurso da Caixa Econômica Federal, em 1981, comecei minha militância sindical. Mas já em 1979, quando eu ainda morava na Casa do Estudante, o Lula veio a Teresina fazer o lançamento do PT e eu fui lá assistir. Então, eu posso dizer que já conheci o PT em seu nascedouro, embora só tenha me filiado em 1984.  
 
Portal Medplan - O senhor tem uma longa história no sindicalismo, mas desde o primeiro governo de Wellington Dias atua como gestor público. Como é estar do outro lado? 
 
Acho que é um grande aprendizado. Eu entendo que um gestor que não tem a oportunidade de ser sindicalista tem muita dificuldade de compreender a luta da classe trabalhadora. É claro que cada um tem a sua missão, tenho certeza de que fui um bom sindicalista. E hoje faço tudo para ser um bom gestor, que é meu papel nesse momento. Mas tenho o maior respeito aos sindicalistas, acho que o papel do sindicato é essencial para humanizar a relação de trabalho. Em nenhum momento tenho uma posição contrária ao sindicato; embora de vez em quando existam alguns excessos, mas como tudo na vida. 
  
 
Portal Medplan - Detran, Agespisa e agora Secretaria de Saúde. O senhor tem se destacado como gestor público. De onde surgiu essa capacidade administrativa?
 
Eu gosto de desafios. Quando fui para o Detran, foi uma surpresa tal qual a Secretaria Saúde foi dessa vez. Naquele tempo [ primeiro mandato do atual governador] eu era cotado para assumir a Secretária do Trabalho que era mais relacionada com a minha história. Mas acabei indo para o Detran. Meu sentimento no Detran era do usuário, eu não tinha lá o sentimento do gestor público. Foquei minha administração nessa luta pela organização, moralização, investimento nas pessoas. Quando cheguei no Detran, existia aquele sentimento na cidade de que todo funcionário do Detran era ladrão. Mas percebi que não: 95% das pessoas no Detran são decentes e honestas, mas ficam sufocadas por uma casta mal

intencionada. Me apaixonei pelo Detran e melhoramos a sua imagem. Quando cheguei, o Detran do Piauí era o pior do Brasil. Quando saí de lá para assumir a Agespisa, o nosso Detran era o segundo melhor do país. Na Agespisa fiquei pouco tempo, mas também acho que fiz um bom trabalho.  
 
Portal Medplan - Seu desafio agora é a Secretaria de Saúde. Qual o diagnóstico que o senhor faz do atendimento de saúde disponível hoje para o piauiense? 
 

Se você me perguntasse isso há duas semanas atrás eu teria uma leitura, hoje tenho outra porque nós acabamos de sofrer um baque com a questão da CPMF. Nós tínhamos todo um planejamento em cima de um recurso que hoje não está mais disponível.
 
O SUS é o maior plano de saúde do mundo. Só existe coisa parecida no Canadá, que possui outro padrão de vida. Foi uma ousadia da Constituição cidadã de 1988, que fixou em seus artigos o fim do indigente. Antes disso você tinha três níveis de doentes: o rico, que já tinha o plano de saúde privado; o empregado formal, que a empresa recolhia e ele tinha um atendimento melhor; e o indigente, que não tinha nada. A Constituição desenhou um novo modelo que ainda está se consolidando. É um programa muito ousado, se você imaginar que em cima de um recurso você inclui milhões e milhões de pessoas sem ter novos recursos. Então, se você compara a saúde hoje com o sonho que nós queremos alcançar, nós estamos bem longe ainda. Mas desde 1988 nós já avançamos muito.  
  
Ainda acho que nós temos problemas na gestão, o controle de recursos da saúde é complicado, o dinheiro transita de uma forma muito burocrática, encarecendo o sistema. Nisso nós precisamos modernizar. 
 
Portal Medplan - Quais são as suas expectativas para o futuro da saúde pública? 
 

Compreendo que a saúde está no caminho certo. E aí têm algumas coisas que eu gostaria de destacar, como o Programa de Saúde da Família, onde, cada vez mais, nós estamos tirando o foco do hospital e colocando o foco na prevenção. Temos também o trabalho dos Centros de Atendimento Psico-social, que podem tornar possível o sonho de não termos mais os manicômios, possibilitando que as pessoas com transtorno mental possam conviver no meio da gente, da família. Isso tudo é resultado do nosso SUS.
 
Agora, se nós implantássemos o PAC da Saúde, que estava ligado aos recursos que viriam da CPMF, ia ser uma grande revolução. Era um projeto belíssimo, mas infelizmente os senadores, tentando prejudicar o presidente Lula, barraram a aprovação. Sem dinheiro, teremos que ficar mantendo o que se tem.  
 
Portal Medplan - O senhor atua na política, mas possui uma graduação em Letras. Por que essa escolha?
 

Primeiro tentei um vestibular para Engenharia Civil, mas acabei não passando. Quando fui prestar vestibular pela segunda vez, em 1987, escolhi Letras.  Naquela época eu estava meio poeta. Gostava muito de escrever, ainda hoje gosto, mas ando meio enferrujado. Sempre fui um aluno exemplar nessa área, na verdade, é uma das minhas paixões. Li tudo de Aloísio de Azevedo, Machado de Assis, Eça de Queiroz. Mas minha paixão mesmo é o Aloísio de Azevedo. Ninguém conseguiu escrever uma realidade tão visual quanto ele.
 
Desde o período eleitoral, ando meio parado nas escritas. Toda semana eu escrevia textos para o jornal O DIA, passei cerca de 5 anos escrevendo para lá. Já estou com uma necessidade imensa de retomar esse trabalho. 
 
Portal Medplan - Qual momento, dentro de sua trajetória política, o senhor considerou o mais difícil?
 
Com certeza, o dia em que o governador me convidou para assumir a Secretaria de Saúde. Passei três dias sem dormir, porque a saúde era uma área em que eu não tinha militado, mas, ao mesmo tempo, eu não poderia negar um pedido do meu governador. Tive um grande medo de não dar conta do recado. Peguei livros, fui estudar para ver como a coisa funciona. Agora estou aqui, com uma vontade muito grande de acertar mais do que errar. 
 
Portal Medplan - E qual foi, até agora, o melhor momento? 
 
Olha, foi o dia em que contaram os votos como Deputado Estadual e eu fui o mais votado do meu partido. Eu acreditava na minha eleição, mas não acreditava que seria o mais votado do PT e o terceiro da coligação. Quando esses números saíram percebi que estamos mesmo no caminho certo. 
 
 
Raio X
 
Nome: Francisco de Assis Carvalho Gonçalves
 
Idade: 46 anos
 
Um livro: Batismo de Sangue, de Frei Beto
 
Uma música: Bolero de Izabel, de Xangai
 
Um passatempo: ler. 


Clarissa Poty
03.01.2008

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