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Paciente bariátrico chega a perder dentes sem acompanhamento médico

Nos dois anos seguintes à cirurgia, pacientes podem chegar a perder entre 5% e 10% de densidade óssea, por conta de deficiências associadas ao cálcio e à vitamina D.

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Publicado em: 10 de janeiro de 2017

A professora Patrícia Furigo, 37, passou por uma cirurgia bariátrica há 13 anos. Por causa de deficiências nutricionais, ela perdeu boa parte dos dentes, e seu ortopedista pede "por favor" para que ela não quebre nenhum osso. O caso dela está associado, principalmente, às deficiências de cálcio e vitamina D decorrentes da cirurgia bariátrica. A professora também sofreu com vômitos constantes, o que debilitou a dentição. Ela abandonou o acompanhamento médico após, por problemas financeiros, perder o plano de saúde e se mudar de Estado. Tudo isso veio junto com um pouco de teimosia, segundo ela própria. "Eu percebi que estava no limite quando comecei a perder cabelo. Passava a mão e ele caía, provavelmente por causa da deficiência de ferro."

"Uma das coisas que ajudou tudo isso a acontecer foi começar a comer muita porcaria. Salgadinho de saquinho, refrigerante. Eu passei a comer muito errado."

José (nome fictício) não quis que seu nome, idade ou profissão fossem citados. De forma alguma ele quer ser associado à cirurgia bariátrica e suas possíveis complicações. "Tudo isso me causou muita dor e sofrimento", diz.

A esposa dele já havia feito a cirurgia e não apresentou nenhum problema posterior. Com o exemplo da mulher, José deixou de lado cuidados e acompanhamento médico. Surgiu, então, insuficiência cardíaca devido à deficiência de selênio. "Eu fui relapso. Eu deveria ter me cuidado mais", afirma. "Não controlei as taxas de vitaminas e minerais."

Ambos são acompanhados por Gilberto Brito, professor adjunto da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e chefe do serviço de cirurgia bariátrica do Hospital de Base de São José do Rio Preto. O gastroenterologista faz estudos de caso de complicações da operação.

"A cirurgia bariátrica é fantástica, soluciona inúmeros problemas graves de saúde do paciente. Faço há 17 anos e sou fã. Mas as reações adversas têm que ser abordadas com mais seriedade pelas equipes multidisciplinares e pelos pacientes. O paciente deve estar bem informado a respeito", afirma ele.

Brito afirma que resultados preliminares de um trabalho executado no ambulatório do Hospital de Base e da Famerp mostram que só 16% dos pacientes tomavam diariamente um polivitamínico com doses apropriadas das principais vitaminas e minerais.

PERIGOSA NORMALIDADE

A confiança que vem com a aparente normalidade pós-operatória é comum e perigosa, afirmam especialistas. "Muitas vezes os pacientes acham que, com o tempo, não precisam mais de ajuda. É aí que vêm os problemas sérios", afirma Caetano Marchesini, presidente da SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica).

É o caso de Marcos Vanzillotta, 25, editor de vídeos, que fez cirurgia bariátrica há três anos. "Estava tudo tão normal após a operação que eu comecei a me comportar como se não tivesse feito a cirurgia. Foi esse o erro", diz.

Vanzillotta passou o segundo ano depois da cirurgia sem acompanhamento médico e se alimentando mal. Começou, então, a sentir cansaço e falta de disposição. Após exames, ele descobriu deficiências de vitaminas C e B12.

"Os pacientes ficam tão satisfeitos que abandonam o tratamento. Nosso principal desafio é mantê-los com adesão o suficiente para não ter os possíveis prejuízos da cirurgia", diz Marcelo Pinheiro, médico reumatologista da Unifesp e membro da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo.

Pinheiro alerta que, nos dois anos seguintes à cirurgia, os pacientes podem chegar a perder entre 5% e 10% de densidade óssea, por conta de deficiências associadas ao cálcio e à vitamina D. Isso aumentaria o risco de fraturas, de osteoporose, dores pelo corpo e, em casos extremos, até mesmo de convulsões.

RESPONSABILIDADE

Quando constatadas deficiências, suplementações nutricionais específicas para pessoas que fizeram cirurgia bariátrica costumam ser o suficiente para controlar os quadros. É assim que Patrícia Furigo, José e Marcos Vanzillotta buscam se manter saudáveis. Para justamente evitar as complicações, a SBCBM está desenvolvendo um aplicativo que visa conscientizar pacientes e facilitar o acesso a médicos próximos e a informações sobre nutrientes e alimentos.

Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, afirma que uma visita anual ao médico pode prevenir problemas e que é necessário que o paciente vigie o estilo de vida. "Tem que ter consciência que a cirurgia por si não faz milagre e não resolve todos os problemas da vida", diz Vanzillotta.

Fonte: Folha
Edição: F.C.

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