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Epidemia de opiáceos já começa a alterar paisagem urbana nos EUA

Os primeiros sinais de que a coisa havia saído do controle não foram só montes de seringas por todos os cantos.

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Publicado em: 20 de novembro de 2017

No meio das folhas amontoadas na grama, uma cor mais forte chama a atenção. O laranja flúor de centenas de capinhas de agulha na ponta de cada seringa destoa da paisagem do bosque como um estranho sinal de alerta. "Isso aqui estava limpo, mas olha só agora", apontava Clara Cardelle, enquanto recolhia os tubinhos do chão do Highbridge. O parque no extremo norte de Manhattan é um dos pontos de Nova York mais afetados pelo vício em opiáceos. "Este é o lugar aonde as pessoas vêm para usar." Ela, que injeta heroína uma ou duas vezes por dia e agora trabalha num grupo de tratamento a viciados, tem os olhos treinados para escanear a mata em busca das seringas. Mas também tem lembranças de outra cor ainda muito frescas na memória.

"Ele estava azul, azul, azul. E a barriga dele nem se mexia. Estava morrendo", conta, sobre um amigo que socorreu quando ele parou de respirar por causa de uma overdose. "A ambulância demorou uns 15 minutos para chegar. Salvei a vida dele."

Debaixo da ponte que leva ao distrito do Bronx, estão barracas e caixas de papelão. É um dos refúgios daqueles que, como o amigo de Cardelle, fogem de suas casas na hora de usar as drogas que mataram pelo menos 53,3 mil americanos no ano passado —1.374 deles de overdose só na maior metrópole do país.

Quando a chamada crise dos opioides entrou para o vocabulário americano, o vício em analgésicos à base dessas substâncias, entre eles Percocet, Vicodyn e OxyContin, era coisa de brancos em zonas rurais que viraram escravos de comprimidos que usavam com receita médica. Muitos deles poderiam se enquadrar no perfil do eleitor típico do presidente Donald Trump, que classificou a epidemia como emergência de saúde pública nacional há pouco menos de um mês.

Mas, cada vez mais e com potência cada vez maior, os opioides entraram para o mercado ilegal e passaram a se tornar também um drama urbano. Pontos de Nova York, como o Harlem, o Bronx e Staten Island, onde viciados são em grande parte negros e hispânicos, vêm engrossando as estatísticas dessa epidemia.

CADÁVERES

Os primeiros sinais de que a coisa havia saído do controle não foram só montes de seringas por todos os cantos. Corpos vêm sendo encontrados em banheiros públicos, apartamentos, abrigos de sem-teto e parques urbanos —baixas de uma guerra que já deixou de ser silenciosa.

"Essa crise atravessa todo o espectro demográfico e geográfico", diz Bridget Brennan, chefe da agência de combate a narcóticos da cidade. "Nova York virou um centro de importação e distribuição de drogas para todo o nordeste dos Estados Unidos. Daqui nós temos uma visão privilegiada do problema."

E essa não é uma vista bonita. Nos últimos três anos, o volume de heroína apreendido na cidade quadruplicou. Mais grave ainda, o total confiscado de fentanila, droga 50 vezes mais potente que a heroína, saltou de 16 para 117 quilos do ano passado até outubro deste ano.

Não parece muito numa cidade de 8,5 milhões de habitantes, mas 12 minúsculos grãos da substância podem matar uma pessoa. Fentanila pura e outros opiáceos, como tranquilizantes de elefante e rinoceronte, são vendidos em saquinhos de US$ 5 nas esquinas do Bronx. "Uma pessoa morre de overdose aqui a cada sete horas", dizia Liz Evans, diretora do Washington Heights Corner Project, um misto de clínica e café onde viciados podem descansar quando estiverem sob o efeito da droga.

Numa sala cheia de espreguiçadeiras com vista para a paisagem fuliginosa do Bronx, enfermeiros de plantão monitoram cada um deles para evitar overdoses ali.

Eles também ensinam como testar as drogas que compram na rua para descobrir sua potência verdadeira e grau de perigo, já que muitas vezes substâncias são vendidas disfarçadas de outras —a polícia, por exemplo, já apreendeu comprimidos falsificados que eram pura fentanila. "Ninguém nunca morreu no nosso banheiro", dizia Jesse Reid, um dos voluntários de olho no entra e sai da clínica, que atende mais de 5.000 pessoas a cada mês.

Sob a guarda dele, uma mulher cochilava num canto e um grupo de rapazes conversava perto do balcão onde atendentes distribuem seringas novas de graça. Pôsteres nas paredes dão dicas como nunca compartilhar agulhas e sempre buscar usar veias diferentes na hora de injetar.

Mesmo que a lei americana não permita que ninguém use drogas ali, centros como esse se tornaram a coisa mais próxima em solo americano de experimentos de tratamento com injeção assistida testados na Europa e no Canadá, ao norte da fronteira. Evans, a diretora do espaço, conta que a ideia do lugar era não converter viciados à força, mas evitar que ainda mais mortes ocorressem. "Essas pessoas tinham medo de ser presas, por isso elas não procuravam ajuda", diz. "Muitos sentem que precisam se esconder, ser invisíveis."


Fonte: G1
Enviada por JC
Edição: F.C.

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