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Como equilibrar família e trabalho?

A supervalorização do trabalho precisa ceder lugar às demais esferas da vida.

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Publicado em: 17 de outubro de 2019
Imagem: Freepik

Em 1930, o economista brita?nico John Maynard Keynes disse que, dentro de 100 anos, todos estari?amos trabalhando 15 horas por semana. Isso porque a tecnologia se encarregaria tanto do nosso trabalho que poderi?amos ter mais horas livres para o lazer e o o?cio.

Na pra?tica, o que aconteceu foi o oposto. Muitas pessoas esta?o trabalhando 40, 50 ou ate? mesmo 60 horas por semana, e a tecnologia tem nos deixado plugados mesmo nos dias de folga. Dessa maneira, o trabalho tem, literalmente, assumido nossa vida. E o sonho de uma rotina mais equilibrada se tornou ainda mais distante.

Eu acredito que existem duas razo?es para isso. Uma delas e? a tecnologia por si so?. Com uma conexa?o sempre disponi?vel, inventamos uma ferramenta que na?o sabemos exatamente como usar – e facilmente ficamos ligados nela o tempo todo. Mas a outra raza?o e? que transformamos o trabalho em algo extremamente importante para no?s. Acabamos fazendo com que isso ocupe uma func?a?o muito maior do que apenas gerar uma renda.

Três casamentos: você mesmo, família e trabalho

Associamos nossa identidade a isso (“eu sou um advogado”), nossa noc?a?o de sucesso (“fui promovido hoje”), nosso propo?sito (“o que a empresa onde trabalho faz vai mudar o mundo”) e nosso status (“fac?o parte da equipe dos 20”). E, fazendo isso, entregamos ao trabalho a responsabilidade pela nossa felicidade. O resultado e? que quando nosso lado corporativo bate de frente com outros afazeres, ele quase sempre ganha a batalha.

O escritor ingle?s David Whyte, que estudou o trabalho e o quanto nos dedicamos a isso, gosta de dizer que ele e? apenas um dos companheiros com os quais teremos de nos relacionar ao longo da vida ou com o qual ficaremos, de alguma maneira, casados. Whyte afirma que precisamos nos relacionar com duas outras a?reas importantes: o tempo com os outros – companheiro, amigos, fami?lia; e no?s mesmos, que significa estarmos atentos a nossa sau?de e bem-estar, sonhos e valores.

Whyte e? autor de The Three Marriages (Os Tre?s Casamentos, em traduc?a?o livre). Quais seriam? O trabalho, o mundo ao redor e voce? mesmo. E ele diz que esses dois u?ltimos parceiros merecem tanto amor e atenc?a?o quanto o primeiro.

Malabarismos

Quando precisamos equilibrar os diversos aspectos que esta?o em conflito em nossa vida, na?o basta, simplesmente, dar mais atenc?a?o a?s partes que esta?o sendo negligenciadas. A semana vai continuar a ter 168 horas, sendo que boa parte dessas horas sera?o dedicadas – ou deveriam ser – ao sono. Enta?o, se queremos ter uma igualdade entre vida, família e trabalho, precisamos, no lugar de diminuir a atenc?a?o ou a importa?ncia que damos as atividades profissionais, abrir espac?o para os outros dois “casamentos” entrarem.

E? claro que isso na?o sera? fa?cil. A sensac?a?o proporcionada pelo status, pelo propo?sito em estar ali, as diversas recompensas (materiais, inclusive), sa?o boas razo?es para nos sentirmos ta?o atrai?dos por isso (e para o desemprego e a aposentadoria parecerem ta?o assustadores). E precisamos acolher esses sentimentos com gentileza e sensibilidade.

Exercício

Na The School of Life sugerimos aos alunos um exerci?cio que ajuda a visualizar esse desequili?brio: listar tudo aquilo que o faz sentir realmente vivo, em que voce? sente um enorme prazer em ser quem voce? e? e nos seus feitos. Enta?o, fac?a isso agora, em um pedac?o de papel. Escreva seis ou sete momentos da sua vida em que voce? se sentiu cheio de energia e genuinamente feliz.

Em seguida, analise essa lista e circule tudo o que estiver relacionado com o trabalho. Existira?o alguns: talvez um o?timo encontro com um cliente, a ajuda que voce? deu para o colega que na?o conseguia seguir em frente com um projeto, aquela ocasia?o em que se doou e usou toda a sua sabedoria para resolver um problema. Esses sa?o momentos importantes, e voce? tem que celebra?-los.

Mas alguns dos itens citados no exerci?cio podem vir de outras a?reas da vida. Observe aqueles momentos felizes e gratos em que voce? estava com outras pessoas ou quando teve encontros com estranhos que, em uma simples conversa ou atitude, mudaram sua maneira de ver a vida. Circule cada um desses itens tambe?m, usando outro la?pis de cor. E perca alguns minutos para celebra?-los. Por fim, alguns desses momentos devem vir do tempo com voce?: instantes de sile?ncio, lendo um livro, caminhando. Marque-os tambe?m, com uma terceira cor.

Mapa da vida

O que voce? acabou de fazer e? um mapa, desenvolvido por David Whyte, chamado “as tre?s partes da vida”: seu trabalho, as outras pessoas e voce? mesmo. Agora analise se voce? esta? dando a cada esfera o valor que tem. A probabilidade maior e? que seu ce?rebro classifique as partes dedicadas ao trabalho acima das outras. Isso e? um efeito natural da cultura em que vivemos. Mas podemos mudar isso. E? possi?vel transformar uma caminhada na praia em algo ta?o importante quanto o projeto que demanda muita energia.

Essa mudanc?a de foco na?o sera? fa?cil, ja? que fomos educados para acreditar que o trabalho e? mais importante do que qualquer coisa. So? que na?o e? bem assim. Ele e? apenas uma parte do tanto de coisas incri?veis – e igualmente importantes – que temos. E? claro que, quando pensamos em reduzi-lo e passar parte desse tempo fazendo outras coisas, entramos em pa?nico.

Voce? ja? imagina que seu chefe na?o vai gostar, os colegas va?o olha?-lo diferente ou voce? vai ser demitido. Mas isso e? so? nossa imaginac?a?o, que e? craque em promover cata?strofes. Na pra?tica, se a gente passar menos tempo no trabalho (ou trabalhando), mas fazer isso de maneira mais eficaz, alinhada com seu propo?sito, a qualidade do que realiza vai melhorar, e tambe?m a sua reputac?a?o.

Ajustes necessários para equilibrar família e trabalho

Para chegar a esse ponto, voce? vai ter que fazer ajustes, como conversar com seus parceiros profissionais. Mas trabalhar dessa forma pode lhe abrir muitas possibilidades na?o apenas no trabalho como fora dele.

Na The School of Life, gostamos de fazer esta pergunta: “Estamos vivendo a vida que gostari?amos ou aquela que os outros gostariam?”. Quando se trata de família e trabalho, a maioria de no?s vive uma vida ditada pelos outros. Essa e? a parte do acordo que fazemos quando trocamos nossa capacidade de trabalho por dinheiro.

Mas na?o sa?o os outros que esta?o vivendo a nossa vida. No?s estamos. E temos o direito de trabalhar para que isso nos proporcione satisfac?a?o, recompensas e o espac?o e a energia para prosperar tambe?m nas outras a?reas que tornam a nossa jornada uma aventura incri?vel.

Fonte: Vida Simples
Edição: C.S. 

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