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Carta de acionistas da Apple reacende debate sobre uso excessivo de tecnologias

Empresários pediram que companhia desenvolva ferramentas para coibir vício de crianças em celulares

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Publicado em: 09 de janeiro de 2018

Uma década após o primeiro iPhone ser lançado, dando início à era dos smartphones, investidores da gigante Apple escreveram uma carta aberta à companhia pedindo que ela crie ferramentas que combatam o vício de crianças e adolescentes em celulares. Os acionistas Jana Partners LLC, empresa com sede em Nova York, e o Fundo de Pensões dos Professores da Califórnia — que, somados, possuem US$ 2 bilhões em ações da Apple — chamaram atenção para um extenso número de pesquisas científicas que mostram efeitos negativos do mau uso dos dispositivos eletrônicos sobre os pequenos. Entre os sinais mais comuns estão ansiedade, depressão, irritabilidade, perda de qualidade do sono e de concentração.

Os investidores solicitaram que a empresa reconheça sua responsabilidade na formação dessas crianças, tomando medidas como a criação de um comitê de especialistas em desenvolvimento infantil e uma melhor adequação dos softwares de seus aparelhos, para que pais tenham mais opções para proteger seus filhos.

“Há um consenso em todo o mundo, incluindo o Vale do Silício, de que as possíveis consequências a longo prazo das novas tecnologias devem ser avaliadas desde o início, e nenhuma empresa pode delegar essa responsabilidade”, diz um trecho da carta. Entre os estudos usados para embasá-la, há um que revela que adolescentes que passam três horas ou mais por dia usando dispositivos eletrônicos apresentam 35% mais chances de terem um fator de risco para suicídio, em comparação com os que ficam, no máximo, uma hora. Já adolescentes que passam cinco ou mais horas por dia mexendo nesses aparelhos são 51% mais propensos a ter menos de sete horas de sono do que aqueles que utilizam gadgets por até uma hora. Especialistas ressaltam que a privação do sono está ligada a problemas de longo prazo como ganho de peso e pressão arterial alta.

O documento também cita um estudo feito pelo Centro de Mídia e Saúde Infantil do Hospital Infantil de Boston e pela Universidade de Alberta, ambos nos EUA, segundo o qual 67% dos professores observam que o número de estudantes distraídos por tecnologias digitais na sala de aula está subindo.

Fundador e diretor do centro ligado ao hospital em Boston e professor de pediatria da Escola Médica da Universidade Harvard, Michael Rich é otimista em relação à forma como a Apple responderá à carta:

— Os investidores não estão criticando a Apple e pedindo para ela consertar um problema, mas para ajudar os pais e educadores a lidarem com isso — diz ele.

Rich ressalta que, embora não haja como o fabricante diferenciar o aparelho que chegará às mãos de uma criança daquele adquirido por um adulto, há muito o que pode ser feito para adequar o software do celular.

— O hardware, ou a máquina, pode ser idêntico, mas o que deve mudar é o software, a forma como o sistema operacional funciona quando o smartphone está configurado para uma criança ou adolescente — explica ele. — Isso vale para os tipos de aplicativos, as restrições de conteúdo e um ambiente que envolva os pais nas escolhas dos filhos.

O Centro de Mídia e Saúde Infantil foi fundado por Rich em 2002, e, se na época o foco dos estudos era a televisão, hoje as pesquisas são quase integralmente sobre aparelhos móveis com acesso a internet e redes sociais. O médico não aconselha a proibição do uso desses dispositivos, mas pede bom senso aos responsáveis.

— Mesmo que não seja possível para os pais estarem presentes o tempo todo, se eles ensinam os filhos desde cedo a lidar com a tecnologia de maneira madura, os riscos diminuirão. Temos que ensinar on-line da mesma forma como ensinamos off-line — destaca ele.

Rich rebate a ideia de que esse controle invadiria a privacidade dos pequenos:

— Privacidade é um conceito complexo que as crianças e os adolescentes não podem entender completamente. Eles não têm a habilidade de se autorregular e não entendem que estão deixando uma pegada digital que vai acompanhá-los pelo resto da vida.

A iniciativa dos acionistas da Apple, com base em estudos como os de Rich, é vista de maneira positiva por aqueles que pesquisam o assunto.

LIMITE DE TRÊS HORAS DIÁRIAS

Como exemplo de empresas proativas no setor de tecnologia, Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, cita a Alphabet, dona do Google; e o Facebook. A Alphabet possui um canal do YouTube exclusivo para crianças, com conteúdo selecionado. Já o Facebook lançou em dezembro o Messenger Kids, que permite conversas apenas com contatos aprovados pelos pais.

— Não basta entregar um celular nas mãos das crianças. É preciso ensinar como deve ser o uso responsável para que não entrem em pânico, não caiam em golpes, não cedam informações para desconhecidos — recomenda ele.

O psiquiatra Gabriel Landsberg, diretor médico da clínica Espaço Clif, avalia que, embora haja algumas recomendações gerais, cada caso é único, pois a personalidade do jovem e o contexto cultural em que vive influenciam a forma como vai se beneficiar do uso dessas tecnologias ou como será atrapalhado por elas. A saída ideal é que a criança ou o adolescente, seus pais e sua escola cheguem a um acordo sobre esse uso:

— O que sabemos, como dado cientifico, é que mais de três horas por dia (de exposição a uma tela) é prejudicial à saúde, em todos os casos. Não estão incluídas aí ligações ou trocas rápidas de mensagens, mas o uso corrente dos dispositivos.

Já em sala de aula, os professores precisam perder o medo das novas tecnologias e aprender como essas ferramentas, que tanto atraem seus alunos, funcionam. Esta é a avaliação de Daniel de Sant’Anna, educador do Nave/Colégio Estadual José Leite Lopes, programa de ensino médio profissionalizante desenvolvido pelo Oi Futuro em parceria com a Secretaria estadual de Educação do Rio. Segundo ele, que há anos pesquisa o tema, quando os professores se apropriam das novas mídias e entendem a lógica que elas seguem, conseguem criar vínculos com os alunos e pensar em maneiras de diminuir as distrações durante as aulas.

— Uma geração sempre critica a seguinte por causa do tipo de mídia que consome. Eu fui criticado por ser da geração do controle remoto e do videogame. Agora é a vez dos celulares — analisa ele. — Se um aluno está conversando pelo WhatsApp no meio de uma explicação minha, eu aproveito e falo: “Já que você está no celular, pesquisa isso ou aquilo para mim”. A turma dá aquela risada, ele entra de novo no assunto da aula e tem duas opções: ou pesquisa mesmo ou fica inibido e não volta a pegar o aparelho na hora da explicação. Se você proíbe e rema contra a corrente, vira o professor chato. E isso só piora a situação.

Fonte: O Globo
Edição: A.N.

 

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