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DOSES DE CULTURA

Robin Lane Fox: “Ler Homero muda você para sempre”

Entre as aulas em Oxford e as plantas, sobre as quais escreve para a imprensa britânica, acredita que muitas respostas às questões da atualidade estejam nos textos de séculos atrás.

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Publicado em: 19 de fevereiro de 2018
O ensaísta Robin Lee Fox.

Robin Lane Fox tem uma dupla vida profissional que transcorre em algum lugar entre Atenas e os jardins ingleses. Por um lado, é um dos grandes classicistas do Reino Unido, professor emérito da New College de Oxfod e autor de ensaios como The Classical World (O Mundo Clássico), que foi escolhido como um dos melhores livros do ano em 2007 pelos críticos de Babelia. Também escreveu uma célebre biografia de Alexandre, O Grande, que Oliver Stone utilizou como base para seu filme sobre o conquistador macedônio, para o qual ele trabalhou como assessor – e como figurante, já que integrou as tropas do famoso general. Eruditos, amenos e surpreendentes, seus livros serviram como introdução à Grécia para muitos leitores. E além disso Lane Fox, de 71 anos, é um jardineiro profissional. Há quase meio século, ele assina uma seção de jardinagem no caderno de fim de semana do Financial Times, além de supervisionar vários jardins em Oxford. Ele concedeu esta entrevista em Córdoba, onde compareceu como jurado da primeira edição do Festival Internacional das Flores, realizado em outubro. Fox é um homem cordial, com muito humor, mas não está brincando quando diz que não gosta de passar muito tempo longe de seus jardins. “Se precisasse ficar três noites fora de casa, sofreria do que chamo de ‘sonhos verdes’. Sonharia com meu jardim, mas logo teria pesadelos pensando que tudo foi queimado, e teria que voltar para casa.”

Qual era a relação dos gregos e romanos com os jardins?

Por exemplo, na Domus Aurea (Casa Dourada), o palácio de Nero em Roma, as plantas eram um elemento essencial. Para os gregos, os jardins significavam sobretudo frutas e hortaliças. As flores eram um luxo só para os ricos, e não havia muita água. Quando a estrutura social mudou e chegaram os reis, os jardins ficaram na moda entre os gregos poderosos. No mundo romano, os líderes gostavam de exibir seus parques e jardins. Cultivavam algumas flores, mas não tantas quanto vemos num jardim inglês. Os imperadores romanos eram ditadores como Ceausescu e Saddam Hussein, ou os dois ao mesmo tempo, e adoravam construir parques onde mostravam sua grandiosidade. Um exemplo é o enorme parque de Adriano em sua vila de Tivoli. Mas eu respeito as pessoas que fazem as coisas crescerem. Não me impressionam tanto as que pagam para manter grandes jardins.

A diferença é muito grande?

Enorme. Às vezes é a mesma pessoa, mas nem sempre. O que adoro é a jardinagem, não a contemplação de jardins.

Em seus livros, o senhor explica que os primeiros jardins botânicos foram gregos, de um discípulo de Aristóteles.

Teofrasto, que determinou que seria enterrado em seu jardim. Conhecemos algumas das plantas que ele cultivou, mas seu objetivo era mais científico do que estético.

E qual é seu jardim botânico favorito?

Existem dois grandes no mundo: o de Munique e o de Edimburgo. Trabalhei em Munique em 1965, quando tinha 18 anos, e é o melhor jardim do mundo. Tem plantas excepcionais. Em Edimburgo, os escoceses realizam um trabalho excelente e têm acesso às plantas que vêm da China e do Extremo Oriente. Admiro o jardim botânico de Madri, perto do Museu do Prado. Comecei a admirá-lo nos anos noventa, quando foi renovado. É maravilhoso. No Reino Unido, gosto dos jardins privados.

Podemos contar a história do mundo através das plantas?

Seria muito interessante, pois isso nunca foi feito adequadamente. Quero realizar um programa de TV sobre lugares da Grécia onde ainda crescem plantas famosas na literatura clássica. Na Ilíada, o poema mais importante do mundo, Hera quer seduzir Zeus, o rei dos deuses, no monte Ida. É irresistível, e Zeus faz amor com ela sobre um leito de flores. Casal de sorte. E se você for em março ao monte Ida, poderá encontrar as mesmas flores... Também há surpresas com a origem das plantas. Por exemplo, sempre se pensou que os pêssegos chegaram da China na Idade Média. No entanto, arqueólogos alemães encontraram em Samos [uma ilha grega] um caroço de pêssego muito antigo. Ainda me pergunto se eles o colocaram ali. A história antiga das plantas é muito disputada.

Quando a conversa se concentra na outra profissão de Lane Fox, o professor logo pergunta ao interlocutor se é capaz de ler grego clássico. Ante a resposta negativa, ele explica que “nunca é tarde demais” e realiza uma defesa da necessidade de aprender aquele idioma. “Temos muitos motivos para estudar o grego clássico, mas um se destaca. Se você leu os poemas de Homero em sua língua original, sua vida tem sentido. No final do dia, você pensará: ‘O que fiz hoje?’ Gravei uma entrevista em inglês, li alguns artigos. Mas se você lê Homero, isso te muda para sempre.”

Há um ano entrevistei o latinista Paul Veyne...

Eu o conheço, um homem muito inteligente.

E ele me explicou sua teoria: restam tão poucas pessoas que falam latim e grego, que faria mais sentido utilizar o tempo que se dedica a essas línguas na universidade para a leitura dos autores clássicos. Em outras palavras, é mais importante ler Homero da forma que for do que ler alguns versos de Homero com dificuldade na língua original.

Isso não faz sentido. Veyne é um historiador, muito importante, mas não é um homem de letras. Não me importa quem leia grego, de fato às vezes eu gostaria que alguns professores de grego não o soubessem por causa das coisas que escrevem, mas Homero está aí para todos. Por que deveríamos negar à maioria da humanidade o acesso ao que de mais importante ela produziu em sua história? Não posso concordar. As escolas deveriam ensinar Homero em grego clássico. A pergunta correta, na verdade, é por que temos que aprender francês no colégio.

A literatura clássica nos ilumina sobre os grandes períodos de crise, como o helenismo e a queda da República romana. Acredita que estamos vivendo um desses momentos de mudança total?

Não. Basicamente, não está acontecendo nada. O Brexit é uma estupidez, mas não significa, nem de longe, uma crise comparável a uma conquista romana ou à ascensão de Alexandre. Não deveríamos achar que podemos aprender lições com o mundo clássico. Eles tinham escravos. Às vezes, me pergunto se não deveria escrever toda vez: “Péricles, o ateniense dono de escravos”. De fato, existe uma poderosa lição moral que tiramos do mundo clássico: não se pode tratar as outras pessoas dessa forma.

Por que o senhor termina seu livro O Mundo Clássico com Adriano, imperador de 117 a 138 d.C., e não com o final do Império Romano do Ocidente, no século V?

Porque acredito que ele tenha sido a primeira pessoa que olhou para trás e contemplou o mundo grego como se fosse clássico. É a primeira vez que um olhar clássico sobre o mundo se transforma em dominante e, com ele, muda o olhar sobre o passado. E além disso é espanhol...

Sabemos ao certo por que o mundo se converteu em cristão, por que os velhos deuses foram abandonados para a adoção de um novo?

Sim, conhecemos muitas razões. Uma delas foi a conversão do imperador Constantino, que além disso destinou muito dinheiro à Igreja e aos cristãos. Isso incentivou muita gente a seguir esse caminho. A conversão do mundo clássico à cristandade foi um processo lento, que terminou somente no final do século V. Foi uma religião que uniu as crenças à ética, coisas que antes haviam estado separadas; e que prometeu uma vida após a morte...

Mas, em seu livro, o senhor diz que Jesus devia ter cerca de 30 seguidores quando morreu.

Sim, sem dúvida isso é extraordinário. É uma das grandes histórias da humanidade. Não acredito na mensagem, mas respeito o que conseguiu.

Seu livro explica que Cícero construiu uma enorme casa em Roma, que podia ser contemplada de muitos lugares porque ele gostava de se expor em público. Não estaria ocorrendo, neste momento, algo parecido com as redes sociais?

Nunca tinha pensado nisso, mas me parece muito interessante. Como Cícero publicaria suas mensagens no Twitter? Eu adoraria reconstruir os tuítes de Cícero.

E era Cícero um idiota, com um ego gigantesco, ou um dos homens mais inteligentes de todos os tempos – ou um pouco das duas coisas?

Se você é de esquerda, não poderá suportá-lo, mas muitas vezes ele te impressiona. Não posso deixar de sentir simpatia por ele. De verdade. Pouquíssimos colegas meus simpatizam com ele, salvo os especialistas em sua obra. Os historiadores o consideram um horror, alguém que nunca se preocupa com o povo, um novo rico que erra em tudo… Mas o que posso dizer? As cartas são maravilhosas. Ele erra sempre: sempre pensa que todo mundo o está esperando para que volte e resolva as coisas, e isso nunca acontece. Sempre que pode errar, ele erra. Mas o mundo seria muito mais cinza sem Cícero. Quando tiver 80 anos e já não escrever livros, voltarei a ler todas as suas cartas. Sendo já velho, ele relata a visita feita por Otávio [o futuro imperador Augusto]. E temos a descrição daquele encontro entre o jovem mais letal do mundo e um homem de Estado ancião que deseja voltar a ser importante... É irônico quando escreve: “Acredito que fará tudo o que lhe sugeri”? É maravilhoso. E noutra ocasião ele recebe a visita de César, pois este gostava de Cícero desde que não falassem de política. [César] chega com um séquito de 2.000 pessoas, e eles passam a noite toda falando de teatro grego, quando Cícero desejava que lhe perguntasse sobre a atualidade política. Após a visita, Cícero escreve um comentário: “Acho que não é o tipo de pessoa que convidaria de novo.” São coisas imortais.

O senhor escreve há 40 anos para o mesmo jornal...

Mais ainda: 47.

Qual é a maior mudança que viu no jornalismo neste meio século?

No meu trabalho, [a mudança é que agora] sou melhor. Chego a mais leitores. Quando comecei, escrevia para pessoas que moravam no sul da Inglaterra e que queriam aprender a cultivar plantas e flores. Agora, o Financial Times do fim de semana é um jornal global, um dos mais importantes e lidos do mundo. Escreverei sobre minha viagem a Córdoba. As pessoas querem ler sobre muitas coisas, não só sobre jardinagem. Sou [hoje] muito menos provinciano.

E do ponto de vista técnico?

No início eu não escrevia. Acredito em Homero e na literatura oral: ditava meus textos. Depois escrevia à mão e enviava o texto a um editor, que o mandava à sua secretária, que o escrevia à máquina. Depois voltei a ditar. E agora tudo se transformou em digital e já não dito. Gostaria de voltar a fazê-lo, mas sei que não vão me deixar.

Fonte: El Pais
Edição: F.C.

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