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Saúde e educação

Qualidade é a base para produtividade e nela estão presentes a humanização, a coibição do desperdício de recursos e a habilidade para lidar com equipamentos complexos de alta resolubilidade.

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Publicado em: 06 de março de 2017

No final de 2016 foram apresentados os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - Pisa, com 72 países avaliados; posicionou o Brasil em 63º em Ciências, 59º em Leitura e 65º em Matemática com problemas em interpretação de textos e cálculos matemáticos simples. Para a Saúde, os níveis educacionais são fundamentais, pois, sem a capacidade de "obter, processar e compreender informações básicas para tomar decisões apropriadas em relação à preservação de suas condições físicas e mentais", torna-se difícil a adesão dos indivíduos a práticas que promovam a saúde, previnam as doenças e possibilitem o correto tratamento de doenças crônicas, cada vez mais prevalentes.

Indivíduos, comunidades e empresas, para sobreviverem saudáveis, necessitam de qualidade (de vida/de produção), produtividade (pessoal/empresarial) e de custos compatíveis (viver dentro do orçamento pessoal/produzir dentro do limite das receitas), sendo que a base para a conquista destes objetivos é a educação pessoal e da equipe.

Fatores de risco respondem por percentual elevado de causas de morbidade e mortalidade, refletindo em mais internações e custo para o sistema de saúde. As primeiras 40 causas de internação no Sistema Único de Saúde, algo em torno de 50% (de dois milhões e meio no SUS-SP, nos últimos anos) relacionam-se à: dietas inadequadas, sedentarismo, uso de drogas, tabagismo, alcoolismo, sexo sem proteção, tratamento descontinuado, automedicação, causas externas (violência, acidentes, doenças e riscos ocupacionais) e questões ambientais (poluição, lixo, esgoto, água não tratada, inundações, vendavais e deslizamentos).

A ausência de controle destes fatores colabora com o aumento de doenças como as cardiopatias, neoplasias, diabetes, doenças infectocontagiosas, nefropatias, neuropatias, doenças mentais e traumas, que causam limitações na qualidade de vida, óbitos inclusive em idades precoces, internações, uso intensivo de medicamentos, órteses e próteses, reabilitação física, social e ocupacional, alto custo para os sistemas de saúde e prejuízos socioeconômicos incluindo perda de produtividade.

Para os profissionais de saúde, a educação tem papel fundamental em vários aspectos: são 14 as categorias de saúde (e mais de 340 especialidades), trabalhando em equipes de forma integrada, enquanto proveem cuidados. Saúde não é feita exclusivamente por profissionais "da saúde". Cada vez mais categorias profissionais estão envolvidas: arquitetos, engenheiros, economistas, administradores de empresa, advogados, antropólogos, sociólogos, geógrafos, demógrafos, estatísticos, atuários, profissionais de tecnologia da informação e comunicação, que precisam ser reconhecidos igualmente.

Há uma série de fatores além da técnica, do método, do comportamento e do marketing, compondo um conteúdo múltiplo para a assistência, que é a base para pesquisa e ensino. As diferentes carreiras devem em algum momento se fundir no uso de conceitos claros sobre saúde e administração.

A capacidade dos profissionais em transmitir suas mensagens aos pacientes e demais profissionais requer aperfeiçoamento nas técnicas de comunicação e compreensão dos problemas de assimilação, bem como do meio cultural em que o serviço de saúde se insere e das dificuldades na obtenção dos resultados esperados. A educação do profissional de saúde é fundamental para desenvolvimento das habilidades necessárias, principalmente na atenção primária, que pode evitar cerca de 18% das internações sensíveis às ações desta modalidade de atenção.

Gestores públicos e privados devem junto com os formadores de profissionais de saúde alinhar o currículo das escolas com a demanda do mercado com base na dinâmica das mudanças demográficas, epidemiológicas, geográficas e econômicas. Educar para a valorização da anamnese e do exame físico é ponto fundamental na prevenção de desperdícios, principalmente em exames complementares, haja vista que, algo como 35% deles não são retirados pelos pacientes ou pelos profissionais, sem contar aqueles com resultados normais (ao redor de 60% em alguns serviços) que, provavelmente em parte, poderiam ter sido evitados. A utilização da 'medicina defensiva', baseada em exames complementares traz aumento de custos e não garante precisão diagnóstica.

A tecnologia presente de forma intensa nos estabelecimentos de saúde demanda formação específica de qualidade para a operação de equipamentos complexos de alto custo. Tecnologias como as 'telessaúde' exigem profissionais preparados para realizar o procedimento e diagnosticar, enfim, para trabalhar com máquinas e pessoas. A tendência é prevenir internações e a tecnologia, utilizada adequadamente, é uma aliada.

Produtividade permite atender maior número de indivíduos mantendo-se custos compatíveis com a necessidade local e regional, e educação profissional é fundamental. Exemplificando: o número de operações por sala cirúrgica não passa da média de duas por dia, porém, há hospitais de complexidade semelhante em que este número chega a cinco, ou até oito. Qualidade é a base para produtividade e nela estão presentes a humanização, a coibição do desperdício de recursos e a habilidade para lidar com equipamentos complexos de alta resolubilidade.

A gestão de saúde, setor complexo, complicado, de alto risco e alto custo, implica incorporar técnicas administrativas tradicionais de saúde e de outros ramos de negócios, ênfase no conhecimento epidemiológico, informação de qualidade e inovação (indústria 4.0). A abordagem política da saúde, sem viés ideológico, exige conhecimento que só a educação permite analisar e sintetizar.

Educação de melhor qualidade produzirá cidadãos mais conscientes, bem preparados e menos dependentes do Estado, com capacidade de gerenciar melhor a sua vida e consequentemente a sua própria saúde; assim como a melhoria da formação dos profissionais envolvidos na prestação de programas e serviços de saúde refletirá na efetividade, eficácia e eficiência da assistência, pesquisa, ensino e gestão de saúde.

Olímpio J. Nogueira V. Bittar é médico especialista em Saúde Pública.

Fonte: Valor
Enviada por JC
Edição: F.C.

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