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O diploma morreu… Viva o portfolio. Esta e outras reflexões sobre o que nos prepara de fato para a vida

Mathieu Le Roux reflete sobre o nosso modelo atual de educação: "Ele precisa ser transformado para cultivar a criatividade em vez de apagá-la como faz hoje"

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Publicado em: 02 de janeiro de 2017

Alguns meses atrás eu participava da minha primeira Rubyconf em São Paulo, um evento para desenvolvedores Ruby, quando me deparei com uma palestra dada por uma menina de 13 anos com tiara de gatinha cativando um público essencialmente composto de programadores homens (com o dobro de sua idade). Emmanuelle Richard estava falando de como integrar Rails e Angular, e muita gente estava tomando notas. Ela ficou famosa na comunidade ao desenvolver seu primeiro aplicativo com 12 anos e começar a blogar para contar sua história de aprendizagem. Fica difícil imaginar um outro ramo científico ou técnico que daria espaço nas conferências para uma menina com tiara de gatinha… Obviamente, nesta idade, ela ainda não tem nenhum diploma ou certificado oficial qualquer, e ninguém sabe o que ela fará com seu futuro. Provavelmente, irá para uma Universidade algum dia… ou talvez não.

Mas dá para imaginá-la prestando pouca atenção nas aulas enquanto pensa em seus projetos pessoais. Dá para imaginar também que surja o dia em que ela decida abandonar de vez os estudos para se lançar numa aventura empreendedora, na qual aprenderia mais do que pode imaginar. Fazendo. Bom, essa ficção minha é pura invenção mas é, sinceramente, o melhor que desejo para ela. Não é que eu realmente precisasse assistir a esta cena para cair a ficha de que nosso modelo de educação esta sendo reinventado na idade digital. Mas ela me ajudou a formalizar o quanto nosso modo de reconhecimento do saber está mudando. 

A adoção da internet pode ser comparada à invenção da imprensa. Com ela, Gutenberg nos ajudou a ter livros mais baratos e a construir mais bibliotecas que, na maioria das vezes, deram luz a Universidades ao redor delas. Então, agora, tente imaginar o que a internet vai fazer para nosso sistema educativo! A obsolescência do diploma já é a norma no universo da programação. Bem antes de Emmanuelle, várias lendas de “crianças prodígio” ganharam fama. Aaron Swartz, o futuro fundador do reddit tinha sido convidado para palestrar numa conferência tech para falar de seus trabalhos e deixou todo mundo surpreso quando, ao chegar, perceberam que ele tinha apenas 12 anos! Hoje, sabemos que tudo o que acontece no universo da tecnologia geralmente anuncia as mudanças por vir no resto da sociedade. Principalmente por duas razões. Primeiro, porque é um ramo relativamente recente em comparação aos outros campos científicos (pense na astronomia em 1600) onde muita novidade aparece sem medo de quebrar antigas hipóteses dadas como certas.

Em segundo porque, por definição, a tecnologia é o campo científico que adota primeiro as novas ferramentas da comunicação e do design. São essas mesmas ferramentas que estão provocando a mudança radical que vivemos desde os anos 1990. Se não é absurdo imaginar que o que acontece no ramo da programação é uma antecipação do que está vindo para outros ramos, pense no seguinte: 

Dois terços dos programadores nos Estados Unidos são autodidatas. No Brasil, imagino que este índice seja maior ainda. É claro que ninguém vai te culpar por ter vindo de uma escola prestigiosa, mas ninguém vai prestar muita atenção em você até você mostrar o que você criou, inventou e compartilhou (melhor ainda se for open source). Aqui, abro um parênteses para falar de mim. Sou um francês morando no Brasil. Me formei numa escola de negócios mas, insatisfeito, acabei montando um projeto de volta ao mundo. Era, na verdade, uma desculpa para eu encontrar todos os grandes empreendedores que admirava, como Muhammad Yunus. Essa aventura se transformou no livro 80 Homens para Mudar o Mundo, que já foi traduzido em nove idiomas. Depois de alguns anos como investidor em capital de risco — durante os quais lancei o serviço de streaming de música Deezer na América Latina —, criei a Le Wagon, o primeiro Bootcamp de programação do Brasil. Lá, nós ensinamos código em nove semanas. E, como você pode imaginar, não entregamos diploma. Então, para voltando à questão central deste artigo, e de acordo com o que vejo trabalhando com desenvolvedores o dia inteiro, minha convicção profunda é que o portfolio dá de goleada em diploma. Um diploma comprova sua inteligência, um portfolio sua imaginação.

O modelo clássico de educação treina alunos a encontrar soluções de problemas que já foram resolvidos. O professor só desenha exames que ele consiga corrigir. E os corrige medindo a distância das respostas para uma única norma de excelência. O melhor aluno é quem melhor replica (raramente inventa) uma maneira de resolver o problema em questão. Isso sempre me deixou perplexo. Tantos neurônios e energia sendo usados para encontrar coisas que já conhecíamos! Isso torna-se vira ainda mais absurdo quando usar a internet ou uma calculadora é considerado trapacear. 

“Por favor, aprenda essa nova linguagem de programação. Você terá que decorar a documentação inteira e não pode acessar Stackoverflow ou Github (comunidades online com perguntas e respostas de programadores)…” Na escola convencional, verificamos nos alunos a capacidade de lembrar uma informação que está, e estará, a um clique do Google para o resto da vida deles. Para que serve isso? Sério. Deveríamos avaliar a criatividade. No futuro que nos aguarda, tenho certeza que precisaremos de pessoas com imaginação muito mais do que versões humanas de Wikipédia. Verificar na internet antes de atacar qualquer problema deveria ser obrigatório. Ninguém nunca achou uma solução? Então publique a sua! Alguém já resolveu? Passe para um problema novo. Obviamente que uma nova pedagogia, nessa linha, exigiria que se desenhassem problemas de uma forma diferente (e professores com imaginação). Mas a quem se formasse nesse modelo eu confiaria meu futuro. 

Mas como garantir que eles vão aprender? Isso é meu próximo ponto. O diploma é um reconhecimento que você conseguiu passar em exames elaborados por no máximo uma dezena de professores. O que fica radicalmente diferente com portfolio é que não há limite de quantas pessoas acabarão julgando o seu trabalho. Para um portfolio, o numero de pessoas usando o software que você programou, assistindo a animação que você criou, ou lendo o blog que você escreveu torna-se o novo padrão de sucesso. Seguidores, curtidas e visualizações são o verdadeiro reconhecimento da idade moderna. E essas multidões são, também, mais espertas.

Elas vão rastrear qualquer bug, erro, incoerência, ou informação falsa bem mais rápido e impiedosamente do que o melhor dos seus professores. Vale lembrar que foi comprovado que a Wikipédia tinha menos erros do que a Encyclopedia Britannica. Multidões são sábias. Neste mundo aberto onde você apresenta seu trabalho de bom grado, você terá que aprender a lidar com a crítica e os trolls, é claro. Mas não será muito diferente da maneira que você aguentou aquele professor de biologia te detestava na sétima serie. Um diploma revela a sua conformidade. Um portfolio, seu lado único. Nosso modelo de educação é fordista, alunos são tratados em função do ano de fabricação e os mesmos conteúdos são empurrados na mesma ordem, sem distinção. O resultado disso é que escola lentamente apaga nosso lado criativo. 

Agora, se você já se interessou por artigos sobre Inteligência Artificial, deve ter entendido que ser bom em tarefas repetitivas não é o tipo de habilidades que você deseja para seus filhos. 

E, claro, nossa habilidade de fazer aquela pergunta que ninguém tinha formulado antes, especialmente os programadores de AI. A Inteligência Artificial pode estar chegando, mas a Imaginação Artificial vai demorar ainda. As ciências cognitivas têm provado o que sempre me pareceu óbvio: aprendemos brincando, aprender tem que ser um jogo. Ficamos muito mais animados quando criamos coisas, do que respondendo formulários ou escrevendo textos que precisam se conformar a um padrão tão estreito. A outra grande vantagem de uma pedagogia baseada em portfolio é que ela nos força a botar a mão na massa. Claro que a teoria é necessária, difícil imaginar construir um website complexo sem entender o sistema Model View Controller por exemplo. Mas ensinar o modelo MVC sem a perspectiva de realmente construir algo animador seria uma tortura. Um dos erros mais comuns da “mentalidade do diploma” é colocar esforço demais na preparação e planificação. Você é formatado para estudar o ano inteiro para um exame final de algumas horas, e o paradigma universitário é que estudar alguns anos com seriedade vai te servir para a carreira inteira…

Desta forma, você começa a acreditar que para realizar grandes coisas tem que aprender a desenhar sistemas complexos antes de qualquer prática. Isso explica por que se vê estudantes de administração de empresa focando tanto no Business Plan e esquecendo-se que nada vale tanto quanto uma primeira venda para entender o mercado, o cliente, o negócio. Em comparação, a “mentalidade portfolio” te ensina a começar com pequenos passos e a resolver problemas na medida que eles aparecem. Na verdade, esta é a única maneira pela qual todos os sistemas complexos nasceram. Quando sua educação te incentiva a construir projetos, a primeira lição aprendida é: sua capacidade a colaborar é o seu melhor recurso. Os melhores times sempre superam os melhores indivíduos. Talvez fique mais difícil comparar um projeto ao outro para o professor, mas quem se importa, realmente? Eu não estou dizendo que não deveria ter nenhum feedback, especialmente negativo, se for preciso. Mas todo mundo que já trabalhou em equipe sabe que os membros são os mais exigentes professores. 

E se esforçar para entrar na melhor universidade possível continua valendo. Quando estudei administração, aprendi também a editar vídeos, usar Photoshop, editar livros e falar em público (tudo fora da classe, óbvio) além de lidar com trabalho em equipe para organizar festas alcoolizadas com 2 000 pessoas todo mês (onde os próprios alunos servem bebida e fazem a faxina). Enfim, fiz muita coisa, e matei muita aula. Digo isso tudo para defender que precisamos mudar a mentalidade ao redor do diploma. Ele é valorizado demais mesmo décadas depois da graduação, como se fosse uma garantia vitalícia de sucesso. Nos vivemos agora num mundo aberto onde qualquer um pode publicar qualquer coisa. Então se você criar uma coisa que vale algo, nunca foi tão fácil virar notícia. Use as plataformas existentes! Crie um blog se quiser virar jornalista, poste no Instagram, Vimeo ou dribbble se você sonhar em virar artista, coloque sua musica no Soundcloud, compartilhe seu código no Github, faça vídeos no YouTube se quiser ensinar, inscreva seu negocio no angel.co se quiser levantar fundos para sua startup… Nenhuma dessas plataformas garantem sucesso, assim como certificados também não. A única diferença é que elas vão te deixar tentar, não importa quem você é (ou qual foi sua nota de matemática no colégio). Então preste atenção em aulas, grude nos melhores professores, mas comece a criar alguma coisa que te anime — e mostre-a para o mundo!

Por Mathieu Le Roux

Fonte: Projeto Draft

Edição: A.R

Comentários

Eugênio Gervásio Wenzel

07 de abril de 2017

Essa constatação / reflexão se mostra muito atual.
Do meu ponto de vista, isso vale há muito, para diversas áreas de atuação, independente da internet. A questão é superar a repetição do que se aprendeu na escola, na faculdade, mas fazer valer isso na vida cotidiana. Não repetir um autor, mas ser um constante autor, como alguem que encontrou sentido no que aprendeu.

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