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Coronavírus: como explicar que idosos devem ficar em casa para se proteger

A abordagem certa com os idosos pode ser o diferencial para prevenir a disseminação da doença e o maior risco na faixa etária a partir dos 65 anos.

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Publicado em: 17 de março de 2020

Imagem: iStock

Devido à necessidade de as pessoas ficarem em casa para se proteger do coronavírus e evitar que a doença provocada por ele se espalhe, surgiu uma questão importante. Como mostrar a pessoas com mais de 70 anos que, muitas vezes, têm dificuldade em lidar com seu envelhecimento, não gostam de admitir algumas limitações e já vivem algum grau de isolamento social que elas vão ter que passar ainda mais tempo dentro de suas casas, evitando sair na rua e ficando mais distantes fisicamente de filhos, netos e amigos?

Minha avó faz 95 esse ano. Vocês acham que ela ficou brava ou feliz quando eu disse que ela precisa dar um tempo nas voltinhas que dá em volta da sua casa? E, ainda, tomar uma série de cuidados ao receber visitas? Uma senhora de 95 anos fazendo compras nas ruas do Rio de Janeiro, em entrevista ao Fantástico do último domingo, contava que sua saúde é excelente exatamente porque sai de casa todos os dias para suas atividades rotineiras. Não duvido em nada disso!

Pois é, apesar da dificuldade, restringir o deslocamento dos idosos, por um período que pode ir de semanas a meses, a depender da evolução da covid-19 por aqui, vai ser essencial para preservar a saúde deles e escrever uma trajetória menos agressiva do coronavírus no Brasil.

E a preocupação faz muito sentido se observarmos com atenção os números relativos às taxas de letalidade (número de pessoas infectadas que podem morrer) por faixa etária. Em menores de 50 anos, a taxa de letalidade do vírus é de menos de 1%. Com o envelhecimento, esse número aumenta progressivamente. Na faixa de 50-60 anos, ela é de cerca de 2%, na de 60-70 anos, ela se aproxima de 4%, entre 70-80 anos, ela está próxima de 8%, e a partir dos 80 anos, ela pode chegar até 15%. Na Itália, um dos países que registrou o maior numero de óbitos até agora (só nesse último domingo, foram mais de 300 em um único dia), a média de idade das pessoas que morreram é de cerca de 80 anos.

Mas números e argumentos racionais não são, em alguns casos, suficientes para mudar comportamentos, principalmente aqueles que implicam em uma mudança de hábito de vida e em um cerceamento, mesmo que temporário e relativo, da liberdade e da autonomia. E isso não acontece só com coronavírus: pense no cigarro, no açúcar, no uso regular de preservativo, só para ficar em alguns exemplos.

E não é só isso. Se sair na rua, fazer atividades de lazer, socializar, ver o mundo acontecer e ter liberdade de ir e vir traz uma tremenda sensação de bem-estar emocional para qualquer um de nós, imagine o que isso significa para uma pessoa mais velha, mais solitária (porque perdeu o companheiro ou a companheira), que não tem mais uma rotina regular de trabalho e espera a semana toda para ver filhos e netos! A rua pode ser o sopro de vida, o momento do dia que traz alegria. Não é difícil mudar isso e pedir que eles se isolem em casa? Pense no custo social e emocional dessa mudança para cada um deles!

De tanto que se falou do coronavírus nas últimas semanas, a mensagem tem chegado a quase todos. As ruas estão definitivamente mais vazias, as pessoas lavam muito mais suas mãos, temos visto menos gente se cumprimentado efusivamente com abraços e apertos de mãos, enfim os recados surtiram efeito e esse é um processo cumulativo.

Os mais velhos estão recebendo as mesmas mensagens. As repostas deles, como de todos nós, podem variar desde a negação completa que vivemos um momento que exige cuidados especiais até uma situação de pânico total. Nenhum dos dois extremos, do ponto de vista de saúde pública, é benéfico. Ao negar, eles se expõem a riscos desnecessários. Ao entrar em pânico, eles podem elevar seu nível de estresse a um estado insuportável, que prejudica sua saúde física e mental.

O melhor ponto, sem dúvida, está no meio do caminho, adaptado à realidade de cada um. Por isso é importante que a família garanta a autonomia dos mais velhos, mas reforce a preocupação com sua vida. Assim, são essenciais medidas como ficar em casa o maior tempo possível, sair apenas para o absolutamente essencial, não entrar em aglomerações (mesmo em espaços abertos), cumprimentar pessoas à distância, lavar as mãos com cuidado e frequência, e talvez a mais dura, evitar beijos e abraços de filhos e netos que circulam mais livremente pelas cidades, e que têm um risco maior de se expor ao vírus.

Algumas dicas:

Algumas ideias para tornar o isolamento menos duro? Que tal fazer as compras necessárias para os mais velhos (respeitando suas escolhas), presenteá-los com livros e publicações que gostem de ler, melhorar as opções de lazer e entretenimento dentro da casa deles (internet, streaming, TV a cabo), facilitar seu acesso às tecnologias que podem aproximar digitalmente as pessoas (celulares, wifi, redes sociais, vídeo-chamadas), e talvez a mais importante de todas: mostrar que mesmo distante, você está próximo e se importa com seu dia-a-dia e sua rotina. Ouvir mais e falar menos pode ser uma excelente estratégia para se relacionar com alguém que está com suas possibilidades de deslocamento limitadas.

A conversa toda, apesar de difícil, é possível e necessária. Ouça, divida suas preocupações, respeite a autonomia e a liberdade, mas pondere sobre os riscos que eles correm. Entenda como é duro para eles alterar essa rotina, mas seja assertivo ao discutir as medidas que devem ser tomadas para preservar a saúde e a vida deles. Como a gente disse lá em cima, isso pode mudar a forma como a gente vai escrever a história dessa pandemia por aqui.

Fonte: UOL
Texto: Jairo Bouer
Edição: C.S.

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